Valdemar parece fraco, mas é forte pra chuchu. Já quebrou tanto pescoço e é forte no Caju, chamar Valdemar de feio é um caso muito sério pode receber a chave do portão do cemitério, doriotéco.
Era assim, amigo leitor, bastava cantarolar esse samba, gravado pelo grande Jorge Veiga, aviadores do meu Brasil, pra arrumar uma puta confusão com o primo Valdemar.
Primo Valdemar era um folgazão. Marceneiro de mão cheia, lustrador dos melhores, profissional do copo e da sinuca. Unhas amareladas, não só pelo cigarro, mas também pelo álcool e pelo verniz que logo lhe destruíram também os pulmões.
Primo Valdemar, na verdade, era um primo distante, que tão logo ficou sozinho no mundo foi morar com a gente no chalé encantado.
Dormia nos fundos do chalé, era torcedor do Palmeiras e torcedor fanático do Jabaquara, o antigo leão do Macuco e ficava sempre ali na dele não discutia futebol jamais.
Não brigava com ninguém, não levantava a voz, nunca. Ficava injuriado era com os biriteiros do bar do Seu João, principalmente quando cantavam o tal samba do Jorge Veiga aí o cara virava valente e partia pra porrada. No mais era tranqüilo e dizia:
- Fique calmo primo, eu levo desaforo pra casa.
O homem vivia mesmo era nas bocas onde era craque do taco, do pano verde. Ganhava mais dinheiro com o taco do que no trampo. Tanto a grana da sinuca, quanto a grana da boneca de lustrador desaparecia no balcão do Seu João ou na zona entre cachaça e cachaça.
Raramente se via o primo com alguma mulher. O mano Eugenio contava que o primo Valdemar teve uma decepção muito grande na vida. Dizia que estava noivo e a noiva foi embora com outro cara, muito amigo dele. E, aí meu irmão dor de corno, as vezes, destrói a vida do ser vivente, e, não foi diferente com o Valdemar. Por essas e outras é que o primo dizia:
- Casar, eu não caso, que mulher só pra fins de reprodução.
A vida do primo Valdemar era assim, entre copos, taco de sinuca, boneca de lustrador, éter, verniz e bem longe do feijão com arroz.
Sem perceber, a tuberculose já estava comendo os pulmões do primo, que nessas alturas respirava com dificuldades e a magreza ficando mais saliente. Não levantou pra trabalhar naquele dia, nem pra comer, nem pra beber e nem pra porra nenhuma.
A vida do primo estava por um fio. Quem viu de perto a morte chegando pela tuberculose, sabe amigo leitor, que a barra é pesada, principalmente nos tempos de ferro de passar roupa a carvão, geladeira movida a gelo que era entregue diariamente em casa, fogão à lenha, rádio Nacional e reza, muita reza que a coisa quase não tinha como tratar. Se pobre, então, era morte certa. Não adiantava nada, pois era o caminho da roça mesmo. Terno de madeira e pronto.
Com o primo Valdemar não foi diferente, logo foi pro saco. No mesmo dia chegaram os homens da saúde, botaram a metade do chalé abaixo e fizerem uma imensa fogueira com tudo que tinha passado pelo primo. Como sempre tocamos o bonde.