Hoje, logo cedinho, abri meu arquivo de memórias, busquei num tempo longínquo, a centenas de quilômetros desta esquina, defronte da praia do Gonzaga em Santos, acontecimentos de um passado interessante.
Preciso fazer uma filtragem dos momentos bons, embora os nascidos das adversidades também deixem cargas positivas – é quase impossível excluirmos as coisas ruins que apareceram em nossos caminhos, mas pretendo abafá-los nestas entrelinhas.
A mente do homem é poderosa, poderosíssima! Não há CDs de muitos gigas, desses dos dias de hoje, que caibam os arquivos armazenados no cérebro humano. Dando uma reviravolta no pensamento, voltei no tempo e, fiz uma viagem, num vôo meio lunático, saudosa mas agradável.
As asas da imaginação sobrevoaram a casa grande da fazenda onde meu pai criou onze filhos, comigo no final da fila.
O tempo foi pouco para previsões aladas
O velho Sampaio atravessou, com minha mãezinha, quase todo o século XX. Nesta volta por lá, andei a cavalo, bebi água na bica perene há séculos, na conversa dos ancestrais; roubei frutas, escorreguei nas dunas. O tempo foi pouco para eu fazer todas as previsões aladas.
Nessa volta devo ter cometido erros vestidos de ingenuidades retrospectivas – encontrei a menina da primeira vez - aquela que nunca esquecemos que dá o nó de prazer num orgasmo correto na cabeça do adolescente. Adolescente não erra quando a definição sai do próprio.
Lembrança boa e saudável, embora perigosa. Rolamos na areia branca e solta, ao lado da relva, com a lua a nos iluminar no improviso de uma lua de mel. Lembro-me numa lembrança vivaz do sangue na areia – o derrame do amor, com ausência de culpa.
Resquícios de um passado razoável no aproveitamento. Revivo, olhando para este belo jardim da praia da orla santista, aliás, o maior do mundo (está no Guines book). Santos tem outros recordes; o maior cemitério vertical do mundo, o maior Porto da América Latina, o Rei do futebol que fez seu nome e o do Brasil no mundo.
Pelé não nasceu em Santos, mas fez-se aqui. Eu também não sou santista, mas na minha pequenez, fiz-me filho de Santos. Tenho orgulho de criar meus filhos nesta bela cidade.
Volto aos anos 60, revejo a praia com as ondas, brincando com a água muito limpa, limpíssima. Tenho saudade da areia branquinha – das ondas sem sujeiras para pescar na orla. Num lampejo revelo a beleza da praia e a despreocupação dos banhistas.
Concreto cobrindo a terra
Agora vejo muito asfalto e concreto, cobrindo a terra, numa espécie de egoísmo necessário, por causa do progresso, e o aumento demográfico. Substituindo aquela despreocupação temos a insegurança - grades reforçadas, medo, muito medo!...
Naquela época o sol parecia está mais longe que o de hoje - deve ser por causa da incidência do progresso. Eu quero vir a todo instante ao presente, insisto, mas volto à fazenda.
Um mutirão de homens, mulheres e crianças trabalhavam na lavoura – plantio de milho, feijão, algodão... Tudo junto: as sementes, as pessoas com os pés descalços e a terra encharcada.
O sol queimava a pele das pessoas ingênuas. Ambições pequenas nos sonhos delas. Bastava à natureza favorecer o andar do inverno, fazendo-o comedido.
Outro amanhecer com a rotina do plantio e do sol escaldante. A natureza formava um nevoeiro nas proximidades, com nuvens escuras e pesadas.
O tempo fechou e o pé d’água veio rápido. Os córregos, que desaguavam na represa, os enchiam rapidamente. A chuva grossa segurou por um tempo, como quem diz: tenham paciência, mas não confiem tanto, tanto como em Deus, em mim.
O velho Sampaio comentava, sem reclamar, do exagero natural.
A roça grande plantada pelo mutirão desmanchava-se na erosão. As correntezas descobriam as sementes e as levavam sem dó. Fora bonito, mas triste. É só pensar na erosão virando a terra, destruindo raízes, matando esperanças - é ver a tristeza e achá-la bonita.
A parede da represa não vai agüentar essa água toda, vai arrombar! Dissera o sitiante. O medo que encurralava a todos foi diminuindo com a chuva afinando O horizonte abrira-se na visão e na esperança.
O amanhecer do terceiro dia, com a poeira da tempestade no chão, precisava do recomeço.
Bandos de pássaros, de dezenas de espécies, num canto ensurdecedor, davam ânimo ao replantio. A rotina, tumultuada pela tempestade, voltou e o resto do inverno foi comedido, com uma excelente safra no final.