Roberto Corrêa está para a viola de dez cordas assim como Baden Powell está para o violão, Altamiro Carrilho para a flauta, Sivuca para a sanfona entre outros exemplos desta grandeza.
Autor do primeiro método de viola caipira, abriu as portas das salas de concerto para que muitas platéias pelo mundo, através de seu toque preciso, limpo e refinado, pudessem ouvir ponteios, catiras, pagodes, rasqueados entre muitos outros ritmos e melodias da nossa tradição oral.
Em 1975, Roberto deixou Campina Verde, no interior de Minas Gerais e foi estudar física na Universidade de Brasília. Na capital federal encontrou com duas paixões fulminantes que determinaram a sua vida.
A primeira delas foi a própria viola e a outra a esposa Juliana Saenger, com quem divide uma linda família e a produtora Viola Corrêa Produções Artísticas.
A pequena empresa independente é a responsável pela feitura de discos tanto do próprio Roberto quanto vários outros de resgate de culturas ancestrais, livros com partituras, métodos, enfim, tudo o que a criatividade do violeiro permitir.
É um acervo rico e sem precedentes, que disponibiliza um universo maravilhoso, tanto presente quanto esquecido pela indústria cultural.
Campina Verde que não volta mais
É a própria Juliana quem dá a chave da personalidade do marido. Ela conta que quando Ramiro, o filho menor do casal, completou um ano, eles prepararam uma festa junina no quintal da casa onde moram. Tudo foi feito com os detalhes de sempre. “No dia eu arranjei um terno risca de giz larga e um chapéu, um traje bem caipira, e pensei, agora é só deixar o Roberto ser ele mesmo que está pronta a fantasia”, conta.
Roberto dá muita risada da história e ratifica. “Eu venho de Campina Verde, que é pequenininha. Desde que eu tinha 13 anos meu pai comprou uma fazenda e eu aprendi a lidar com gado, roça, essas coisas. A fazenda era próxima da cidade e dava pra ir e voltar no mesmo dia. Hoje, eu vivo em Brasília, numa cidade grande, mas moro afastado do plano piloto, de um jeito parecido. Mesmo assim eu me tornei uma pessoa mais urbana, mas é só eu voltar a Campina Grande que tudo vem e o sotaque fica arretado. A essência é essa mesmo”, completa acentuando a fala caipira.
Ele conta que com o passar do tempo ia lá e não encontrava mais o local onde nasceu e viveu. “Ficou aquela cidade da minha infância dentro de mim, com seus lugares e personagens que marcaram, que foram os bobinhos da cidade, que eu cito na ‘Campina Verde’”, fala se referindo à canção que abre o disco “Temperança”.
A Música, a Viola, a Prima e o Avô
O que surgiu primeiro, ainda em Campina Verde, foi o violão. Uma prima chamada Nali Corrêa o observou ainda bem menino brincando aleatoriamente com o instrumento da irmã. A moça, que tentava com dificuldades aprender a tocar, percebeu o seu talento e o encaminhou a um professor seresteiro e boêmio chamado José da Conceição, que ensinava “de ouvido”. Esta mesma prima surge de forma determinante em outro momento da sua vida, quando lhe entregou o caderno de contas correntes do avô. Nele ele encontrou 49 modas de viola, inclusive a primeira, que era uma denúncia política por conta do qual dizia-se que o avô havia sido assassinado.
Com isso descobriu a história do avô, que também era violeiro, cantador de folias de rei. “Eu sou descendente de família de violeiros e não sabia dessa história. Eu percebi então que a minha ligação com a viola talvez não tenha sido ao acaso. É como se fosse uma sina. A minha família é uma casta de violeiros. O que ia sendo repassado de pai pra filho eu perdi com o assassinato do meu avô. Por outro lado eu me tornei um músico completamente livre. As minhas composições são diferentes da tradição, mais livres e modernas. Esta parte da tradição eu busquei através de pesquisa. É uma história de dois caminhos”, revela.
A viola foi acontecer em Brasília. Quando ainda era estudante da UNB formou o grupo Olho D’água. Na época, em 1977, estudava violão clássico há mais de um ano, mas encontrou uma viola em liquidação, se encantou pelo instrumento e daí teve início a história. “Viola era diferente de tocar violão. Percebi que pra tocar bem a viola eu tinha que abandonar o violão. E, com isso, pautei a minha vida, pois não havia nada sobre o instrumento, cursos, métodos etc. Ai eu passei a pesquisar, ir atrás de quem tinha o conhecimento. Fiz uma proposta de pesquisa pro CNPQ, ganhei a bolsa e comecei a viajar atrás de guias de folias de reis, vendo os toques, histórias etc.
Violeiro Profissional
No ano de 1983, enquanto na capital federal explodia o rock nacional, Roberto faz o seu primeiro recital de viola chamado “Parecença” e lança também o único método até então de viola, que viria a ser um embrião do hoje consagrado “A Arte de Pontear Viola”. “O que eu tive que buscar nas pesquisas entreguei mastigado ali pras pessoas. Depois disso, em 1985, eu fui convidado a dar aula na Escola de Música de Brasília pelo Carlos Galvão, recém empossado e que chegou com um projeto de montar um núcleo de música popular e eu tô lá desde então. Essa escola de música foi a primeira que eu tenha notícia a adotar a viola como instrumento regular”, se orgulha.
A Morte Veio Buscar
Em 1988, quando estava prestes a ir para a Alemanha, em sua primeira viagem internacional, Roberto sentiu um efeito no braço, como se ele momentaneamente desaparecesse. No princípio achou que fosse problema de postura. “A coisa piorou com o passar do tempo e junto a isso fiquei desvitalizado. Quando fazia um recital quase desmaiava de cansaço. Já em 1993, fui ao médico e foi constatado um tumor no cérebro. Cada ressonância magnética custava mil dólares e eu não tinha plano de saúde. Por conta disso vendi toda a minha coleção de instrumentos para o museu de Osaka, no Japão”, lamenta.
A única alternativa que a medicina tradicional oferecia era a cirurgia que retirava o tumor e a área em torno. A área em torno controlava a parte motora e ninguém podia garantir que efeito colateral teria com a cirurgia. Roberto conta: “Naquele momento eu resolvi passar para a medicina alternativa, lutar pela vida de outra maneira. Parei de usar os remédios, fiz várias cirurgias espirituais com médiuns, tomei um chá de uma planta venenosa durante um ano e quatro meses e comecei a trabalhar muito, pois eu queria deixar as minhas coisas registradas”.
O Legado
Até então ele tinha poucas coisas suas gravadas. Resolveu que, antes de morrer, iria deixar quatro projetos prontos. O primeiro deles é o disco “Uróboro”, com as suas composições instrumentais para viola. “Uróboro” é um símbolo místico que está na capa do CD e traz uma serpente devorando a própria cauda. “Isto significa a dualidade, a vida e a morte, o escuro e o claro, o mundo das cobras, o círculo que é o símbolo perfeito, que significa Deus. Na minha cabeça eu queria que esse símbolo fosse também uma espiral, que a morte não fosse o fim, mas sim uma passagem de fases, de dimensão”, relata o violeiro.
O projeto seguinte é o disco “Crisálida”, onde mostra a potencialidade da viola como instrumento solista. “No início eu senti muito preconceito na universidade, pois achavam que a viola era um instrumento menor, que tinha que ter um violão acompanhando. Ai eu queria um disco onde a viola aparecesse como um violão clássico, sozinha tocando um repertório brasileiro de choros, Villa-Lobos, entre outros clássicos da nossa música”. Ele conta ainda que o nome também tem a ver com essa fase. “Crisálida” é a potencialidade do ser, a lagarta que se enclausura e vira borboleta. O terceiro projeto é o livro “A Arte de Pontear Viola”, onde todo o seu conhecimento didático sobre a viola está registrado.
Juliana e a Cura
Neste momento conheceu a Juliana, que demonstrou interesse em fazer pesquisa de campo. Na época, Roberto fazia a produção de um dos discos de Zé Mulato e Cassiano e ela foi convidada a participar. “Isso aconteceu em 1997 e a gente começou a namorar. Eu contei a ela a história da minha doença. Os sintomas estavam desaparecendo, a gente trabalhava muito e eu sempre repetia as ressonâncias”. Em 1998, já casados, ele fez uma tomografia e constatou que o tumor havia regredido, calcificado. “Eu estava curado e tudo isso virou música, a história da minha vida”. São as canções que estão no disco “Temperança”, que é o quarto projeto e por conta do excesso de convites que o violeiro recebeu ao longo deste tempo foi adiado e só saiu agora, em 2009.
Nestes últimos dez anos, Roberto Corrêa engrossou a sua discografia com obras imprescindíveis. Fez dois discos com a cantora Inezita Barroso, produziu outros dois com a dupla Zé Mulato e Cassiano, participou de vários projetos individuais e coletivos, lançou livros, enfim, esteve mais vivo do que nunca.
Só agora, nos últimos doze meses, lançou três discos, “Antiquera”, com a Orquestra à Base de Cordas, de Curitiba, “Violas de Bronze”, com Siba e o autobiográfico “Temperança”. Está com um pronto, em parceria com a cantora Eli Camargo e se prepara para mais dois, um deles com cinco violonistas de Minas Gerais (Toninho Horta, Juarez Moreira, Gilvan de Oliveira, Geraldo Viana e o Tabajara Belo) e o outro é o “Viola de Arame – Composições Brasileiras”, onde vai interpretar composições de músicos de outros instrumentos que escreveram para a viola. São eles Acendino Theodoro Nogueira, Jorge Antunes, Paulo Belinati, Marco Pereira, Maurício Carrilho, Antônio José Madureira e Eustáquio Grilo, que foi o seu professor de violão clássico quando chegou em Brasília.
Para Roberto, com o episódio da sua doença, muitas coisas morreram no seu lugar. Quando se formou em física e resolveu que ia ser violeiro, por exemplo, achava que não poderia casar e ter filhos, pois como músico não daria conta nem de si mesmo. Sua vida hoje, ao lado de Juliana e dos dois filhos, Nara e Ramiro, desmente alegremente esta premissa. “A Juliana assumiu a Viola Corrêa e está na direção artística dos projetos. Com isso, tomamos as rédeas da nossa vida e desbravamos muitas coisas, métodos, projetos de instrumentos que eu encomendava, discos e tudo o mais”, resume.
Só agora, com o lançamento do disco de canções “Temperança”, Roberto sente que fechou um ciclo de vida e de expressão. “Eu não sei o que vai acontecer daqui pra frente. Os compromissos que eu tinha comigo mesmo eu cumpri, agora estou livre para o novo”, conclui. Ao mesmo tempo em que fala o violeiro mal se dá conta que o novo flui ao seu redor desde sempre. A cada idéia sua um ciclo de coisas ancestrais se renova e se projeta para o futuro. Feito um metáfora do que tem sido a sua própria vida, a cada vez que tange a viola Roberto Corrêa movimenta signos que não morrem nunca.