Mingão morava no Marapé, mas não lá pros lados do chalé encantado. Mingão, na verdade, morava um pouco mais pra lá pertinho do campo do Ouro Verde, passando pelo carreirinho da Dona Durrucinda, travessa da bica d’água onde a molecada matava a sede. Era metido a treinador, mesmo porque, a bola, para o Mingão, era um ser estranho, é isso, não sabia nem quem era a bola.
Naqueles tempos, Mingão, como todo bom Marapeano que era, não abria mão de assistir os jogos da burrinha lá no morro do Lima, nas festas juninas comandar a quadrilha do Vila Henedina e, no carnaval, tocar surdo na bateria da inesquecível Dengosas do Marapé que até hoje, mesmo depois de tantos anos desaparecida ainda assim é a queridinha do bairro.
O povo do pedaço sabia porém, que a principal atividade do Mingão, e que ele não deixava de fazer de maneira nenhuma, compromisso quase sagrado, era o de animador de velório. Tinha velório lá estava o nosso estimado Mingão. O homem não podia ver defunto sem chorar, dizia:
- Não quero nem saber quem morreu eu quero é chorar! Se tiver vela acesa eu rezo, mano!
Era assim mesmo, um quase circo de velório. Era o contador de mentiras e anedotas. Com o Mingão não tinha velório triste. Algumas famílias, ditas enlutadas faziam questão de convocar o Mingão, que, inclusive, era quem comandava o gurufin.
Bem sabe o amigo que naqueles tempos da rádio novela os velórios eram realizados nas residências e dali para o Saboó e num tempo bem passado o transporte do morto era feito pelo bonde. Sempre o bonde. Nas casas os espelhos e as janelas eram cobertos com pano preto, se viúva, o chamado luto fechado, os homens uma fita preta no bolso da camisa.
Confundia bife à milanesa com bife ali na mesa
No velório, cerveja preta, que o luto era coisa séria. Por essas e outras é que o Mingão era fundamental. Não tinha tempo ruim, tendo velório lá estava o nosso animado Mingão. Pra velar o corpo, passar o tempo valia tudo amigo leitor, jogo do gurufin, porrinha e um pouco mais escondido um joguinho de bozó.
Mesmo com todo esse prestígio Mingão tinha um pequeno problema. Muito distraído e esquecido, confundia bife à milanesa com bife ali na mesa, capitão de fragata com cafetão de gravata. Deu parabéns pra muita viúva e pêsames pra muito aniversariante.
Caso muito comentado e conhecido, no Marapé, foi o velório do Pau Queimado que aconteceu em pleno domingo de carnaval. Depois do desfile, claro, maravilhoso das Dengosas, foram pro bar do Seu João, o Mingão, o Paulo Landulfo, o Valdir e o Sininho e tomaram todas das prateleiras e do balcão de todos os sabores e qualidade: com carqueja, com boldo, com cambuci e da pura do alambique do Arlindo do morro da Nova Cintra, o famoso morrão do morro.
Dona Tereza estava no balcão, pois Seu João que, ainda guardava na alma memórias lusitanas, foi fazer uma reforma na casa do Morgado Piroca Triste e começou a demolição do muro, que era muito alto, dando marretadas embaixo do dito cujo, tentou correr não deu tempo, o muro desabou-lhe nas costas. Quatro costelas quebradas.
O amigo leitor deve estar se perguntando por que Morgado Piroca Triste. Diziam os amigos que ele não conseguia dar um sacode Iaiá na patroa e pra ajudar mandaram fazer um chá afrodisíaco com caroço de abacate. Quase mataram o homem que foi parar no hospital. Ficou piroca triste pra sempre. Mano velho desculpe a viagem na maionese e vamos voltar para o velório do pranteado Pau queimado.
Invadiram o velório fantasiados
E assim seguia adiante o velório do Pau Queimado, calmo e tranquilo como tinha de ser, quando, lá pelas quatro da manhã, Mingão, Landulfo, Valdir e Sininho, ainda fantasiados de bailarina, confete, serpentina e lança-perfume, carregados na caiana, manguaçados, voando baixo com pandeiros e o surdo invadem o velório cantando em altos brados a marchinha famosa:
- “Lá vem seu china na ponta dos pés... Chinês bate punheta uma vez por mês..”
Depois desse entrevero o prestígio do Mingão ficou um pouco abalado, mas logo o assunto foi esquecido e o nosso insubstituível animador de velório voltou com força total pra acabar com a tristeza dos velórios cumprimentando a família enlutada com sua preferida e enigmática frase de sempre:
-“É assim mesmo, amigo, a vida nunca tem final feliz, pois o siri anda de lado e o caranguejo anda pra frente.”
Pois é caro ouvinte, gente nascendo, gente morrendo, o bonde 37 indo e vindo e o Mingão em alta novamente. E foi assim que num dos velórios mais concorridos do bairro, o morto tinha mais prestígio que mocinho de novela e não podendo faltar, é claro, os serviços do nosso animador, Mingão foi convocado com pompa e circunstância para comandar o velório entre a cachaça e muita cerveja preta.
E o Mingão, desta vez, mais animado que festa de fim de ano, pois as Dengosas foi campeã mais uma vez pra variar um pouco, foi vencido pela distração e o esquecimento. O velório comendo solto, lá pelas dez da noite, o jogo da porrinha à vontade com cachaça e os imbatíveis salgadinhos da Dona Zilda, quando entra no recinto uma mulata escultural. O diabo vestido de anjo sem asas. Peitos fartos e bunda generosa. Mingão cochichou no ouvido do Landulfo, parceiro de sempre:
- Porra mano velho eu conheço essa crioula, mas não to lembrando o nome da nega.”
E ficou ali matutando tentando descobrir de onde conhecia a gostosona. Estava impaciente e a cerveja rolando.
O tempo ia passando e a impaciência do Mingão aumentando. Eis que chega o padre pra encomendar o corpo. Teve inicio as ladainhas. Bem sabe o amigo ouvinte que naqueles tempos as orações eram todas em latim, ou seja, ninguém entendia porra nenhuma, mas que era bonito isso era:
- “Come não come arroz com marisco.” “Qui refrescorum tarraquentun marrecus lagus est!”
Seguiu-se aquele silêncio absoluto e no preciso momento do Pai Nosso, a tragédia anunciada.
Mingão que estava longe, mais distraído que pinto no lixo, bem longe tentando lembrar o nome da crioula maravilhosa, deu um pulo e gritou a pleno pulmões, quase que comemorando um gol da burrinha:
- “Porra, Landulfo, é a Esmeralda. Vai ser gostosa assim na puta que o pariu!”
Landulfo completou:
- “Vou me impirulitar Mingão, que a vida, afinal, nunca tem final feliz e o siri anda de lado e o caranguejo anda pra frente e toca o bonde mano”.