Brasil - Santos - 9/9/2010
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Toca o Bonde
Rene Ruas - é escritor, toca cavaquinho e faz parte do grupo de samba Ouro Verde e do Clube do Choro de Santos
Bom mesmo era antigamente

 

Revirando outra página

Do nosso álbum colossal

Já representamos Cuba, Brasil,

A Holanda e Portugal

Até mesmo os errantes ciganos

Que com sua pátria falha

Foi representada por nós

E agora voltamos à Itália

 

Vamos cantar, cantar

Vamos dançar, dançar

Um trecho da tarantela

 

Iamo, iamo, iamo , iamo

Funiculi, funiculá, funiculi, funiculá

A dançar a tarantela

E não quiseram mais parar

 

Marcha-Rancho do inesquecível e inigualável Bloco Carnavalesco Dengosas do Marapé em um de seus últimos carnavais. Agradeço aqui a memória do Picula que ainda se lembra de muitos carnavais das Dengosas. Composição do Tião e Sininho. Na foto, membros do bloco no antigo e saudoso bonde 37, que passava pela avenida Pinheiro Machado, nas imediações do Marapé, no Canal 1.

 

Os amigos cobram sempre. E lá vou eu de novo de carnaval. Outros amigos me cobram porque eu só falo ou escrevo, sei lá, somente sobre antigos carnavais. Eu me pergunto e aos amigos também. Como escrever ou falar sobre o que não existe em Santos? O carnavalesco amigo pode fazer um teste. Qualquer dia de carnaval, domingo, segunda ou terça, dê uma voltinha pela cidade.

 

Dou o braço a torcer se o amigo encontrar alguma movimentação carnavalesca, um pedacinho de confete, um rolinho de serpentina sequer, algum maluco fantasiado e, se o caro leitor encontrar pode acreditar o doido tem no mínimo sessenta anos de idade, menos que isso nem pensar.

 

Pode ficar tranquilo não corro o risco de ter o braço torcido. Não verás amigo, nada! Sentirás apenas um silêncio de quarta-feira de cinzas. Portanto, leitor amigo não se engane, nos dias de hoje as lojas carnavalescas vendem mais fantasias do grotesco e horroroso ‘raloin’ do que fantasias de carnaval.

 

Se tomarmos como exemplo os desfiles das Escolas de Samba pra falar sobre carnaval nós estaremos cometendo um grande erro, pois, o que é que tem, hoje, um desfile de escola de samba com o carnaval?

 

Na verdade o desfile das escolas não tem mais nada em comum com o carnaval. Mais uma vez pergunto ao amigo. Se o desfile das Escolas de Samba for realizado em junho, setembro, qualquer tempo, que diferença faz? O desfile de Escolas de Samba pode ser realizado a qualquer tempo que não vai alterar nada mesmo.

 

Conseguiram transformar o desfile das escolas de samba num espetáculo grandioso, porém, de uma tristeza de doer, verdadeira parada militar, na televisão, então, é de uma melancolia de levar o cristão ao suicídio. Aproveito pra dar um recadinho aos que pensam que são donos do Samba porque estão dentro das escolas de samba ou, ainda, os que pensam que tem a primazia do samba porque são mais velhos.

 

Quando as escolas surgiram o samba já existia há muito tempo. As escolas surgiram porque o samba já existia e não ao contrário e, a primazia do samba morreu com Ismael Silva, Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Noel, Bide, Marçal e tantos outros que fizeram a história da Musica Popular Brasileira e, meu irmãozinho, tudo mais é perfumaria.

 

Ia me esquecendo: a assinatura dos sambas enredos das escolas de outrora era de dois, três autores, no máximo. Hoje é um verdadeiro condomínio, com até 15 autores, é mole!!

 

O abre alas nos vamos passar

Somos moleques queremos farrear

Somos moleques de rua, porém

De bons corações, juntos fazemos

Travessuras, alegram vosso corações

Somos do amor, somos da alegria

Nós queremos mais um ano de alegria

Viemos recordar o tempo que passou

Relembrando a infância que passou

 

Marcha-Rancho do Bloco Carnavalesco Moleques de Rua, que saia do Campo Grande. O Bloco participava dos desfiles da Dona Dorotéia.
 
Seus componentes se fantasiavam de vendedores de balas e pirulitos, engraxates, e alguns, ainda desfilavam fantasiados de bebes em fraldas deitados em carrinhos com a mamadeira, claro, cheinha de cachaça. Como diziam na época: Uns pândegos!

 

Depois de tudo isso dito aí em cima, meu camarada, eu não tenho nada pra falar do carnaval de hoje, pois ele não existe mesmo e, eu só posso falar do carnaval que existiu e isso já faz tempo pra caramba e, como já disse certa vez àquele carnaval nunca mais. Não verás carnaval igual. Os tempos são outros, não sei se melhor ou pior, mais os tempos são outros. Preste atenção meu irmão.

 

Abre alas povo amigo

Dá licença pra passar

A Embaixada de Santa Tereza

Gente boa pra brincar

 

Linda terra de Brás Cubas

Terra de encantos mil

És bela, és formosa

Tem o povo tão gentil

 

Saudamos sua majestade o Rei Momo

Imperador do Carnaval

Saudamos a imprensa escrita e falada

E as autoridades em geral

 

Saudamos os Blocos e Escolas de Samba

Ranchos e Chorões

A Embaixada de Santa Tereza

Vem brincar o Carnaval

 

Essa linda marcha é também dos últimos carnavais da Embaixada de Santa Tereza, também do Marapé. A Embaixada era um bloco também muito querido no bairro. Foi lembrada pelo Tinoco. Infelizmente, assim como tantas outras, não conseguimos saber o nome dos autores, uma pena.

 

O carnaval do Rio de Janeiro, por exemplo, não se resume apenas no desfile das Escolas, pois o desfile começa e termina no mesmo lugar sem maiores conseqüências. O verdadeiro carnaval do Rio está nos bairros afastados, nos blocos carnavalescos dos bairros, longe da mídia, longe das aventureiras caçadoras de rainha de bateria.

 

Esses blocos são formados, em sua maioria, por amigos, comunidades e famílias e tem nas marchinhas e nos instrumentos de sopro o seu forte.

 

Esses blocos também não têm nada em comum com as bandas ditas carnavalescas copiadas dos trios elétricos do carnaval baiano que por sua vez, atualmente, não passam de carnaval das patricinhas e mauricinhos paulistas e que ficam quilômetros e quilômetros distantes do povo baiano.

 

Esses mesmos moderninhos (?) que fazem do carnaval baiano aquilo são os mesmos que fazem festas de ‘raloin’, fazem o tenebroso rodeio e, só posso dizer que atrás do trio elétrico só vai quem já morreu.

 

No jardim dos cravos tem um passarinho

Que foi fazer seu ninho na mais linda flor

Quando ele canta, alegra seus filhinhos

E a flor responde

Ai, Ai, Ai amor

 

Existem flores belas em todos os jardins

Muito delas perfumadas, entre elas o jasmim

Alvas como o algodão

E entre as mais belas do mundo estão

Vitória Régia e a papoula do Japão.

 

Essa marcha, amigo leitor, ainda faz bater forte de emoção o coração do Marapeano que viu a querida Dengosas desfilar. Essa eu contei com a ajuda do Pio.
 
Parece que um dos autores foi o Tião, porém não temos tanta certeza, mas tudo levar a crer que pode ser mais uma parceria dele com o Sininho.

 

Encerrando o assunto carnavalesco passo para o leitornauta amigo fragmento da bela marcha-rancho do Bloco Carnavalesco Cruz de Malta.
 
Se não me falha a memória esse bloco era formado por associados do Clube Vasco da Gama e que me foi passado pelo cartunista Lauro Freire.

 

Uma princesa

Por meio de bruxedos

Transformou em cisne

O Duque Godofredo

E para salvar sua amada

Que por tal crime

Ia ser condenada

O Loefgren batalhou tanto

E no fim de tudo

Se desfez todo o encanto
 

 

Evoé moçada. Bom carnaval se for possível. E toca o bonde!
 
 

   

 



09/02/2010
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