Maneco Aires era cobrador do bonde 19. Dizia pro pessoal que não trabalhava, atuava, pois que era um verdadeiro artista. Saltava do bonde para o reboque e do reboque para o bonde com charme e elegância. Parecia mestre-sala do Império do Samba. Não perdia um passageiro, principalmente aqueles espertinhos que se fingiam de morto para não pagar a passagem.
Bem sabe o amigo que Maneco Aires, além de artista, tinha mais tempo de cobrador de bonde que urubu de vôo. Maneco levava a profissão tão a sério que o seu uniforme era de longe o mais impecável da companhia, tanto assim que era conhecido também, como Maneco Tinta Fresca, sempre novinho em folha.
Maneco, que era casado com a simpática Lindaura, levava uma vida sossegada, e, além de atuar como cobrador, era meia-esquerda do Flor do Minho Futebol Clube, time de craques ali do Marapé e, atrevido, batia um pandeirinho, sem ser nenhum Diamantino Cavaco, de quando em vez nas rodas de choro no bambuzal, na casa do Seu Lili.
A patroa, Lindaura, era uma morena clara, encorpada e de sorriso fácil, boa cozinheira e era quem mantinha o uniforme do homem naquela beleza, mais enfeitado que a comissão de frente da Embaixada de Santa Teresa, pois que o maridão não trabalhava, dava show.
Linda, era assim que ele chamava, além de grande cozinheira, era apaixonada pelas novelas da rádio Nacional e fã de carteirinha do cantor Francisco Carlos “El Broto”. Colecionava a Revista do Rádio, principalmente as que publicavam fotos do “El Broto”.
Nem tudo na vida é paraíso
Sabe o amigo que nem tudo na vida é paraíso, tem dia que chove, tem dia que faz sol, e, como bem dizia o bom malandro e quase filósofo Nego Fidélis, que de tão negrão que era a rapaziada chamava de nego Azul, apaixonado por loiras, que foi pro saco muito cedo com o fígado estraçalhado de tanta uca: - Irmãozinho, abençoado, fica esperto que numa chuva de loira cai um negão na tua cabeça! Quando pobre nasce de cu pra lua, chove rola! Se liga mano!
O maior problema do Maneco era quando saia pra tocar o seu pandeirinho ou bater uma bola no Flor do Minho. Não gostava de chegar tarde em casa. Se a lenha terminasse as onze, onze e meia da noite já estava em casa. Não gostava de deixar a patroa esperando. Se fosse jogar bola, não ficava de papo com a rapaziada, voltava logo pra casa.
Quando a roda de choro estava àquela maravilha, o que, convenhamos, acontecia sempre, o Maneco chegava depois da meia-noite e, aí, meu irmão, a Lindaura subia nas tamancas e o pau comia solto e tome barraco e tome esporro. Tinha que dormir sem janta. Linda botava o jabuca em campo e fazia o nosso Maneco dançar o miudinho sem acompanhamento.
Era sempre assim, quase todo final de semana aquela comida de rabo e o nosso Maneco Tinta Fresca, na pior. Não ficava com a turma, tomando a saideira, depois da lenha e, ainda levava um puta esporro da patroa. Não conseguia entender.
Achava-se injustiçado, afinal os camaradas chegavam em casa ao raiar do dia, sem barraco e ele que era cumpridor de ordens e de horário, levava esculhambação, uma atrás da outra e, o que é pior, ficava sem janta. Não entendia mesmo. Mano Serrinha, filósofo e amigo de todas as horas, aconselhou:
- Maneco, amigo velho, se tu chegar onze da noite tu não leva esporro? Se tu chegar às cinco da manhã o esporro vai ser o mesmo, então chega as cinco, as seis e foda-se.
Na primeira lenha no bar do Mendes, depois do conselho do Serrinha, até a rapaziada estranhou, Maneco ficou até o final, foi, a bem dizer, um dos últimos a ir embora. Chegou em casa por volta das cinco da matina.
Entrou de mansinho e, para sua surpresa o prato estava pronto e a Lindaura dormindo o sono dos justos. Acordou meio ressabiado esperando o esporro de praxe e para seu espanto encontrou a patroa com sorriso largo e a mesa pronta para o café da manhã. Pensou, o Mano Serrinha tinha razão.
Cadê a janta?
A partir desse dia retornava pra casa sempre ao raiar do dia, junto com o sol. Pois é aconteceu exatamente o que o amigo leitor está pensando. Bem sabe o amigo que todo mané vê a patroa como baranga, uma pereba, só que o vizinho vê como Marta Rocha e com a Lindaura não foi diferente.
Maneco Tinta Fresca não percebeu que o Sarará, que, pelos seus atributos físicos era conhecido também como Alvinho Pé de Mesa, diziam até que o João da Baiana era fichinha perto dele, tirava o time das rodas de choro mais cedo que todo mundo. Era sempre o primeiro a se empirulitar, saía à francesa.
Maneco que andava com a consciência pesada, pois achava que estava de sacanagem com a patroa, resolveu se mandar antes de terminar a lenha, se despediu da turma e chegou em casa bem mais cedo que o de costume e o tatu subiu no pau.
É isso mesmo leitor amigo, lá estava o Alvinho Pé de Mesa fazendo o serviço de casa e a Lindaura gostando. Naquele momento foi que o Maneco Tinta Fresca entendeu o pedido da Lindaura pra comprar a melhor vaselina do mercado.
Deu um sossega neguinho no escutador de novela da Lindaura que ficou uma semana sem ouvir rádio e nem foi por isso que o Maneco enfiou o braço na traidora. Explicou. Não tolerava relaxamento. Lindaura não tinha preparado a janta.