Certa feita sonhei que estava nos tempos da Idade Média, vivendo de todas as formas próprias daquele estágio da civilização e que, de repente, me colocavam num mundo assustador, super populoso, com trânsito intenso e engarrafado, onde os veículos poderiam voar, caso tivessem espaço. As luzes nas cidades eram intensas e piscavam coloridas. As pessoas se comunicavam por aparelhos, falando como se fosse com fantasmas. Todos tinham pressa e não se enxergavam.
Vestimentas estranhas de homens e mulheres, e elas, mais do que ninguém, pareciam seres saídos do além, com corpos esculturais e rostos e cabelos pintados. Nesse sonho de passagem de centenas de anos a agonia era tamanha e não havia nenhum referencial capaz de me situar e entender quem eu realmente era. Foi um surto.
Ao despertar do pesadelo, coloquei-me a pensar de como seria a situação inversa. Depois de conhecidos todos os processos tecnológicos, que nos ajudam a realizar várias tarefas ao mesmo tempo, que nos dão facilidades e conforto, que nos colocam frente a pessoas que habitam no outro lado do mundo e obtemos respostas imediatas e olhando suas reações, seria um choque de civilizações muito grande e sem meios de podermos imaginar essa volta.
Por outro lado, esses benefícios dos quais acabei de colocar, vêm apresentando um preço alto para a humanidade gananciosa e voraz. Não há limites de consumo, de gastos das energias renováveis ou não, da poluição que submetem os rios, o solo e o ar.
O lixo é atirado pela janela de casas e carros, a água jorra em abundância desenfreada, os combustíveis que fazem gerar a energia para indústrias e fábricas ainda não atingiram os níveis adequados de extração e uso. As chaminés fabris lançam fuligem preta na atmosfera, causando doenças respiratórias e provocando chuvas ácidas.
Esse ensaio de um retorno inverso do sonho que contei não haverá de ser impossível, se mudanças não forem estabelecidas pelas autoridades de todo mundo.
Voltar às origens...
Recentemente, em encontro realizado em Davos, na Suíça e com a participação de membros de todas as comunidades do globo que exercem algum tipo de voz no universo, saíram de lá sem uma resposta satisfatória para os problemas globais que vem afetando as mais diversas regiões, em especial pelo clima, ora com terremotos, maremotos, vulcões, chuvas devastadoras, derretimento das geleiras.
As calamidades que se têm assistido, a maior delas no Haiti, devem servir de alerta e se tentar buscar saídas para novos confrontos da natureza, que reclama o seu espaço e mais respeito.
Ainda nessa reflexão sobre a possibilidade de voltarmos no tempo, pela falta de bens que hoje temos, como o petróleo, a energia, a água e de onde advém todo tipo de sociedade mecânica, elétrica, eletrônica, cibernética, espacial, como seria esse novo aprendizado?
Não resta dúvida que o ser humano adapta-se a tudo e na falta, haveria que ter novos aprendizados de sobrevivência e voltaríamos a pescar e plantar para comer, a pintar o corpo e rosto com as seivas das árvores, a dormir ao relento, sob tendas de palha, a fazer a comunicação cara a cara e sem extensões. Cada um cuidando de um tipo de cultivo e fazendo a troca desses bens, como moeda. As expressões artísticas voltariam a se concentrar nas danças em terra batida, nas pinturas rupestres da época das cavernas, das esculturas utilitárias e como utensílios domésticos.
Para completar mais ainda esse pensamento apocalíptico, resta-nos saber se a terra, os rios e os mares que recebermos de volta estarão limpos e férteis para um novo começo. E se o homem estará com sua cabeça no lugar e com juízo perfeito depois de tantos conflitos com a natureza, com seu próximo e consigo mesmo.
E me lembrei de um ensinamento do biólogo e escritor moçambicano, Mia Couto:
“(...) minha terra, depois de passados muitos anos da minha partida, já não me reconhece mais e eu não me situo mais nela, assim como também não tenho mais condições de voltar de onde vim durante esses anos de ausência”. É um ponto sem saída!