Brasil - Santos - 9/9/2010
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Todos os Tons
Julinho Bittencourt - é jornalista, músico e atualmente reside em Brasília.
As Tantas Marés de Edu Lobo

 

Depois de quinze anos sem lançar um disco de inéditas, Edu Lobo ressurge com “Tantas Marés” e tudo o que sempre se espera dele reaparece, como que por encanto. Nem parece tanto tempo, principalmente pelo tanto que as suas canções perduram na nossa memória afetiva. Alguém consegue imaginar, por exemplo, que o lindo “O Grande Circo Místico”, uma referência da nossa música moderna, já vai para quase trinta anos que foi lançado?

 

E é deste mesmo jeito que, entre o lindo álbum “Meia Noite”, de 1995 e este, passou quase nada. Como se fosse pouco, neste meio tempo lançou ainda “Cambaio”, com a trilha para o espetáculo homônimo em parceria com Chico Buarque e um primoroso songbook, todo escrito à mão.

 

Pois é com o seu jeito meio escondido de fazer as coisas que o cantor, compositor, arranjador e instrumentista Edu Lobo pode se dar ao luxo de construir, em intervalos longos, patrimônios que chegam naturalmente tombados.
 
E, só pra provar que o tempo corre a seu favor, em 2004, como se já não estivesse inscrito para a eternidade desde sempre, ele sobreviveu a um aneurisma sem que a sua música percebesse. Este é, portanto, o primeiro disco que faz desde então.

 

“Tantas Mares” traz canções inéditas com Paulo César Pinheiro e ainda regravações de outras com Chico Buarque e Cacaso.
 
Segundo conta o próprio Edu, desta vez ele não sentou para compor nada específico, como costuma fazer sempre que lança algo, pois estava com o braço quebrado na ocasião da feitura e gravação e ele só compõe com o instrumento. “Dança do Corrupião”, que abre o disco, por exemplo, vem de lá de trás, do disco “Corrupião”, de 1994. A intrincada composição instrumental, prenhe de ritmos quebrados e síncopes, ganhou uma bela letra de Paulo César Pinheiro.

 

A faixa título do disco “Tantas marés” é um daqueles clássicos do repertório de Edu Lobo fadados a colar nas nossas vidas irremediavelmente. Com uma bela letra também de Pinheiro, a canção parece dar a chave da vida do compositor aos 66 anos: “tantas marés / eu já vi passar / carregando meus pés por todo o mar / que a vida é pra se navegar”.

 

Já “Coração Cigano”, também com Pinheiro, parece formar uma trilogia com “Descompassado” e “Coração Noturno”, as duas feitas em parceria com o poeta Cacaso e lançadas em 1978. E, por falar em Cacaso, Edu faz uma justa homenagem ao parceiro já falecido e regrava deles o belo frevo “Angu de Caroço”.
 

 

E, como não poderia faltar, Chico Buarque comparece com quatro canções, três do “Grande Circo Místico”: “Ciranda da Bailarina”, “A Bela e a Fera” e “A História de Lily Braun” e, do musical “Cambaio”, a poderosa “Ode aos Ratos”. Para completar, a sempre delicada e límpida participação de Mônica Salmaso na linda canção de ninar “Primeira Cantiga”, também com letra de Pinheiro.

 

No final, para quem esperou tanto tempo, o disco, apesar de difícil, nos deixa querendo mais. Mas nos deixa também e principalmente agradecidos pelo tanto que Edu mais uma vez nos dá.
 
 
 
 


24/03/2010
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