Brasil - Santos - 9/9/2010
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Toca o Bonde
Rene Ruas - é escritor, toca cavaquinho e faz parte do grupo de samba Ouro Verde e do Clube do Choro de Santos
Olegário si bemol

 

O grande Jumba, lendário seresteiro e sambista, no alto dos seus oitenta anos, carobinha branca por inteiro, numa das muitas lenhas regadas a muito samba e caiana é que lembrou do Olegário Si Bemol cantor de samba canção e valsas seresteiras.

 

O tal Olegário Si Bemol, era arroz de festa, carne de vaca, manja, pois é não faltava em festa nenhuma fosse convidado ou não. Festa no bambuzal, quintal do Seu Lili ou no boteco do Seu Mendes, lá estava a postos o nosso nem sempre convidado Olegário Si Bemol, que, como o próprio apelido confessa, já ia logo pedindo um si bemol e tome:

 

“Se Deus um dia olhasse a terra”. È isso mesmo meu camarada, a linda valsa Caprichos do Destino do Claudionor Cruz e Pedro Caetano.

 

Quando o Olegário acabava de cantar, sem mais delongas o Jacozinho ou o Joãozinho do clarinete já emendava um choro se não ninguém cantava ou tocava mais, pois só dava o si bemol do Olegário.

Meu velho amigo como ninguém agüentava mais o tal Olegário e o seu si bemol, a turma ia se revezando nos solos até esquecer o insistente cantor seresteiro. Esqueciam, porém o Olegário não esquecia e mais um si bemol e uma fieira de valsas.

 

E assim caminha a humanidade e os chatos de plantão. Depois de uma rodada grande de choro a turma dá uma pausa pra tomar uns goros e salgar a boca, e, pensando em estar livre do si bemol do Olegário que, inclusive corria o sério risco de levar uma porrada do Valter Bambu eis que reaparece o homem e pede pra cantar e leva um esporro do velho Lili:

 

- Olegário meu filho canta mais canta em silêncio!

 

O homem desistiu de cantar por um breve momento e ficou por ali rondando esperando uma nova brecha.

 

A fama do Olegário Si Bemol era grande. Os músicos, claro o pessoal do violão, do cavaquinho e do bandolim, é que sofriam na mão ou na garganta, sei lá, do Olegário. Era só o homem pintar no portão pra turma olhar atravessado. Conta o Jumba que até que ele cantava direitinho, o problema, porém era o tal si bemol que dava um trabalho do cacete pra turma no braço dos instrumentos.
 
Sai prá lá Olegário

 

O Valter Bambu reclamava: Porra porque ele não canta em si maior ou lá maior? Porque Si Bemol? Deve ser pra encher os colhões da gente. Só pode ser. Não tem outra explicação! Esse filho da puta, qualquer dia, vai se fuder na minha mão. A turma até tentava enganar o Olegário e ao invés do si bemol, mandava um lá maior ou um si maior, mas o homem, diziam, tinha ouvidos de tuberculoso e logo estrilava.

 

Na verdade, amigo leitor, o pessoal não conseguia se livrar do Olegário Si Bemol. Tinha função lá estava o homem. E, tinha mais, podia fazer um sol de rachar ou chover de balde, que lá estava o Olegário de paletó e gravata que roda de choro era solo sagrado, ritual para iniciados.

 

Depois de tanto si bemol eis que chega o carnaval e o amigo leitor bem sabe que o carnaval aqui, cinqüenta anos atrás, era o segundo melhor carnaval do País (até hoje não sei quem inventou essa bobagem) ou apenas o melhor carnaval de Santos.

 

E, assim, depois do desfile do Bloco Carnavalesco Cantinho do Céu pelas ruas do Marapé, no domingo de carnaval, no final da tarde, a turma se reuniu no bambuzal, quintal do Seu Lili e, a lenha comia solta e chato ali não entrava mesmo e a roda de choro seguia o seu ritual dentro dos conformes. Uma beleza. Como sempre.

 

E tome choro, tome valsa e tome cachaça (muita) um paraíso. Lá pelas tantas sem ninguém esperar eis que surge no portão o nosso surpreendente Olegário Si Bemol, de terno e gravata, e sem falar com ninguém ficou calado encostado no tanque perto da bebida, na dele quieto, só urubuservando. Valter Bambu disse a boca pequena:

 

- Mano Lili se ele pedir um si bemol eu quebro as cordas do bandolim.

 

O choro rolando, o tempo passando e a turma não agüentando a ansiedade e o Valter Bambu decidido a quebrar as cordas do bandolim.

 

Na primeira pausa entre um choro e outro acontece o inesperado. Olegário Si Bemol se aproxima, e pede, quase implorando:

 

- Lili, meu bom, me de aí um Sol maior!

 

A turma sem entender nada, estranhando o pedido inesperado, atacou de si bemol e o Olegário Si Bemol emendou:

 

- Reside no subúrbio do encantando, num barracão abandonado, João de Tal cabra falado. É isso o trato, o Caco Velho do Ary Barroso e toca o bonde.

 

 



10/04/2010
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