Naquele cantão do Marapé a rapaziada falava muito das meninas nos bailinhos e no jogo de bola na rua. A molecada chamava umas de dadeiras, é isso mesmo, aquelas que não podiam ver uma cueca no varal que logo puxavam a vareta da cuíca e as LPC (lava, passa e cozinha) que logo casavam arrumavam um monte de filhos e embarangavam.
A mulata de olhos verdes que era a rainha de ébano do pedaço, a perdição da moçada no frescor dos dezoito anos era, porém, muito diferente, muito mesmo. Zoraide era o nome do anjo de saias. A moçada não falava em outra coisa. Tinha o corpo da tentação. Deixava a molecada doida, a velharada assanhada e as esposas de olhos e cabelos em pé.
Zoraide banquete pra 300 talheres, não dava mole pra ninguém. Dizia que não era pro bico dos perebas do bairro, afinal de contas era um bando de pé de chinelo e, ali, apesar do bairro ser enorme ninguém tinha onde cair morto, um povo sem eira nem beira, sem futuro e, ela era mulher pra ser tratada a paetês e lantejoulas.
Não era ela uma maravilha de beleza, como casar com alguém dali? Não dava moleza pra ninguém e pronto.
O sonho de Zoraide era o de se casar com um americano ou inglês sei lá ou qualquer coisa assim e por isso caprichava no idioma. Era um tal de gudi mornin pra cá, gudi naite pra lá e por aí afora.
- Gudi mornin Seu Maneco, esquiusme me vê aí um quilo de acém plisi.
Passava pela rua com o nariz empinado, não olhava pros lados e quando olhava, olhava com desprezo como rainha olha pros súditos.
Da turma, dois perebas eram completamente apaixonados pela fina donzela. O compadre Cabeleira que era bom dançarino, claro, não era nenhum Nelsinho Boneca, mas fazia um certo agá com as meninas e ficava alucinado quando a mulata passava.
Dedeco, o outro pretendente, não dançava, mas jogava bola pra caramba e se achava mais bonito que ator de filme americano, um James Dean ou Marlon Brando, talvez.
A Zoraide logo soube do interesse dos dois e, mais uma vez ignorou solenemente os dois perebas e bem sabe, o amigo, que dia de tudo é véspera de nada e que nem tudo que reluz é ouro e um dia teve que dar o braço a torcer e torceu.
Cabeleira e Dedeco cansados de brigar pela Zoraide resolveram decidir a parada na porrinha (*) e na melhor de três, o compadre Cabeleira marcou bobeira e pediu lona e o esperto Dedeco que estava com dois palitos na mão ganhou não só a parada como também o coração de Zoraide que tempos depois mostrou que tinha o coração livre e bateu asas.
Zoraide que não ia se casar com ninguém do bairro, quem diria, acabou casando com um pereba do bairro disputada que foi na porrinha e toca o bonde.
(*) Pra quem não conhece, porrinha é também conhecido como jogo de palito.