Brasil - Santos - 9/9/2010
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Causo e Conto
Pedro Firmino Sampaio - é empresário no ramo da engenharia, escritor e contador de causos
A mulher que comia terra

 

Um cantão no fim do mundo existia de verdade.

 

À sombra de altos coqueiros com espessas copas, enfileirados bem próximos uns dos outros, formavam uma cerca intransponível.

 

As copas formavam uma deliciosa sombra nos dias de sol. Essa cerca que separava o sitio dos vizinhos, maus vizinhos, como dizia o proprietário dos coqueiros, marido de Dona Zenaide, embelezava uma área enorme.

 

Os coqueiros, que serviam de estacas, para sustentação do aramado, eram incontáveis – um paliteiro de dar gosto à visão.

 

Ali viviam poucas famílias – em torno de seis casas e outras também poucas abandonadas, cobertas de matos, que às noites serviam para meter medo nos medrosos.

 

Melhoria naquele lugar inóspito só o que provinha da agricultura, com resultados de sobrevivência aos que sabiam usufruir da terra e das chuvas escassas. Leite e carne só de caprinos.

 

Acesso difícil. O transporte da produção, com predominância nos cocos, era feito no ombro humano e no dorso dos burricos e cavalos.

 

Jovino não conseguia entender as coisas por ali. Ele era irmão de Papinha, esposo de Zenaide.

 

Jovino nasceu e viveu na Grande São Paulo, de onde acabava de chegar. Aposentou-se por invalidez aos trinta cinco anos.

 

A falta de quase tudo

 

Dizem que ele queria perder um dedo para favorecer-se com a aposentadoria.  A serra elétrica agarrou o dedo e comeu os outros quatro e o resto da mão até o pulso.

 

Com quarenta anos de idade, continuava solteiro e sem filhos. Em quase todos esses anos ele viveu com a avó em São Bernardo do Campo.

 

Agora morando, por um tempo incerto, com o irmão e a família no sitio. Precisava se adaptar com a falta de quase tudo. O rádio a pilha era a salvação para amenizar a solidão.

 

O paulista estava embasbacado com os costumes do lugarejo naqueles dois meses de estada.

 
Intrigava-se. Por que é que minha cunhada come terra? Parece coisa de outro mundo. Jovino ficou sabendo que o vício, a doença, a loucura ou diagnóstico incógnito, agravava-se mais na época de gravidez, que não foram poucas.

 

Zenaide tinha mais gulodice por terra molhada. Mas tinha que ser de boa qualidade: ser vermelha, limpa de pedras, e outros ingredientes, com exceção dos componentes minerais intrínsecos à terra.

 

Outro fim de mundo acontecia com os adolescentes naquele lugar bizarro. Havia uma praxe meio hereditária: os jovens transavam com animais, de forma corriqueira.

 

Jovino assistiu, viu com os próprios olhos, uma meia dúzia de rapazes numa orgia literalmente animalesca. O forasteiro estava com aquela situação inusitada à sua frente. Assistirei para ver até onde esses malucos vão, pensou.

 

Transando com burricas

 

Os moços transavam com as burricas, jumentinhas, de forma instintiva. O forasteiro não conseguia distingui-las.

 

Elas não pareciam incomodadas. Um monte de irracionais assemelhava-se a cavalos. Jovino  murmurou um monologo de interrogações e exclamações: Aonde estão a sabedoria humana, a crença em Deus, o amor próprio?... É inimaginável, desleal, estarrecedor!...A primazia do instinto.

 

Jovino teve vontade de meter um medo nos energúmenos. Decidiu-se por não fazê-lo. Saiu por um atalho sorrateiramente.

 

Só vendo para crer, da ficção para realidade. Ele seguiu para casa falando consigo. Fotografou na mente aquilo tudo. Jovino tinha essa foto até outro dia quando me contou essa estória. E eu a conto agora neste conto. 

 

Tenho minhas dúvidas, mas acho que ele gostou de guardar a cena. Num descuido falou de loucura - será que sou? Disse-me titubeando.

 

No sítio Maracangalha quase todos são. A convivência, quando a cabeça não é totalmente centrada, pode trazer cumplicidades e complicações. Nem em pensamentos... Minha mãe (vovó) pararia no hospício se me visse fazendo a mula de mulher. Sexo implícito pelos costumes locais? Seria um caso de polÍcia. Um desrespeito desmedido com os animais.

 

Eu não sabia dessas coisas, continuou Jovino esmiuçando-me as aberrações dos jovens. Ele precisava confidenciar com alguém e eu encontrei o testo da minha panela literária para este texto.

 

Em São Bernardo não existem essas coisas. É, mas existem os estupros, pedofilia, malucos das drogas e...Jovino, sentado nos degraus dos fundos da casa grande do irmão, fitava os arredores da vazante – a água da lagoa represava, no meio dos garranchos, a poucos metros.

 

Haviam lhe dito que no ano anterior, diferente daquele vivido, a falta de chuva matara grande parte das árvores – as mais fortes persistiam e já brotavam viçosas. A terra estava molhada da chuva do dia anterior. Ih minha cunhada deve está ouriçada. Dos mesmos degraus presenciara, antes das chuvas, Zenaide jogando água nos tijolos da caieira e os lambendo, como se fosse uma fruta suculenta.
 
 

 



21/12/2006
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