Brasil - Santos - 9/9/2010
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Causo e Conto
Pedro Firmino Sampaio - é empresário no ramo da engenharia, escritor e contador de causos
Melhor que muita gente

 

Aqui em casa somos: eu, minha esposa Marli, meus filhos Bruno e Felipe e as gatas Manuela (nora), Bianca, Pitucha.

 

Bianca e Pitucha, mãe e filha respectivamente. Elas são descendentes de (siamês com pérsia), pretas e têm olhos verdes, cor de mar despoluído.

 

Bianca, a mãe, apesar de felina, parece gente. Ela, sempre no primeiro salto, abre a porta da cozinha habilmente. Reconforta-se no tapete externo do vizinho até fartar-se.  Se a porta estiver fechada ela repete a operação e volta ao apartamento. A incredulidade dos ouvintes desta façanha é pitoresca.

 

O veterinário concluiu que se Bianca não apenas parecesse, mas fosse gente de verdade, seria uma velhinha centenária.
 
Anorexia??

 

Bianca é magra, grande, negra, carinhosa, bonita e inteligente. O veterinário fez chacota dizendo que se ela continuar comendo o tiquinho que come, arranjará uma anorexia.

 

Pitucha está na outra extremidade. É o avesso da mãe. Não herdou a inteligência materna, come feito um cavalo, mas é uma gordinha bonita. Herdou a cor e os belos olhos verdes.

 

Talvez pela soma da obesidade, da patinha dianteira atrofiada, da preguiça e constipação da massa encefálica, ela não pula para abrir a porta.
 
Vira e mexe a pretinha vai ao recipiente de ração e engole uma porção. Acho que ela não come por fome, o faz por gula.

 

Pitucha não suporta crianças. Se alguém em casa imitar a voz de criança, ela se esconde em locais inimagináveis. Atribuo essa ojeriza às crianças porque quando ela era pequenina, minha afilhada a puxava pelo rabo.

 

Após dar a luz à Pitucha, Bianca foi castrada. Pitucha, por razões desconexas, não foi castrada, continua virgem. Em seus longos cios ela ronrona insistentemente.

 

Caiu do 6º andar

 

Foi num de seus cios voluptuosos, que ela, suponho, ao se coçar na janela da sacada, escorregou e caiu do sexto ao andar térreo.

 

O zelador deu a noticia e eu corri à sacada. Meu coração bateu forte tremelicando minhas costelas. Pitucha mexia-se como um animalzinho qualquer que envolto à placenta tenta levantar-se em vão.

 
Marli não teve coragem de olhar para baixo. Eu e o Bruno descemos para recolhê-la, talvez para esconder os restos, da Marli.

 

A pulsação dela latejava lenta, quase imperceptível aos meus sentidos. Está viva! Murmurou Bruno.

 

Corremos com Pitucha ao veterinário. Os primeiros socorros foram rápidos e eficientes. Se os órgãos estiverem nos devidos lugares (presos) ela poderá reagir redargüiu o médico. É uma incógnita apinhada de interrogações. Ela caiu de bunda, continuou o veterinário.

 

Após uma semana a trouxemos para casa numa gaiola. Marli foi rigorosa e bondosa como uma mãe. Pitucha recuperou-se, mas a pata direita dianteira ficou atrofiada.

 

Pitucha tem um carinho especial por Marli. Costumeiramente dorme aos pés da mãe de convalescença. Demonstra gratidão.

 

Bianca é louca pelo Bruno. Enrodilha-se pelos nossos pés. Faz graça de peito ao ar. Crava suas garras afiadas e sobe pela roupa, rotineiramente do Bruno, e vai até seu peito.

 

Ela o abraça com ternura apesar das unhas. Mesmo velhinha continua abrindo a porta e sendo carinhosa. Pitucha, com jeito estranho e furtivo, continua com aversão às crianças. O Felipe costuma dizer que Pitucha carrega na alma traumas da infância.   
 
 

 



24/01/2007
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