Brasil - Santos - 9/9/2010
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Causo e Conto
Pedro Firmino Sampaio - é empresário no ramo da engenharia, escritor e contador de causos
Pressão familiar

 

Ir ao médico sempre foi um martírio para mim.  A preguiça montada no desleixo me desanima e falto a mais um exame de rotina.

 

São coadjuvantes da preguiça: comodidade, desculpa esfarrapada, sanguessuga, me encurralam num canto com um pretexto qualquer e eu me esquivo dizendo não haver doenças, estou ótimo, insisto. Pra quê procurar “chifre em cabeça de cavalo”?

 

Se vocês insistirem o médico vai acabar achando – tentei me justificar aos meus filhos e à esposa. Ela fez ironia: você é quem sabe meu bem. Seu seguro é alto e não temos interesse nenhum em usufruí-lo. Você é quem sabe onde seu bodoque alcança. Não vou suplicar para você ir ao médico – ela foi incisiva ao encerrar a conversa.

 

O tempo passa e meu colesterol anda no obscuro, eu prefiro assim, enquanto minha mente relaxa numa cervejinha hoje, outra amanhã. Minha consciência andou, por muito tempo, atazanando a coerência familiar. O tropeço acontecia e eu colocava a culpa no degrau.

 

Vira e mexe a teimosia volta escanchada na preguiça para infernizar minha família que permanece alheia a essa estória de eu ir ao médico. Enquanto eles fingem não se incomodarem eu me acomodo.

 

A essa hora o pessoal do futebol, na praia, deve está a espera para montagem das equipes – preciso correr.  Ao término da partida a cerveja nos espera no barzinho de sempre – este adendo final precisa ser meio incógnito “aos indiferentes parentes”.

 

Por fim caio na real e marco a consulta. Há alguns anos não faço o check-up e, para quem tem mais de 50, é um exagero nestes dias. Marquei a consulta - meu convenio tem fama de bom, só fama, porque na real é uma enganação.

 

O cajado no piso

 

A fila enorme estava à espera.  Fiquei atrás de um senhor de terceira ou quarta idade, que demonstrava descontentamento. O velhinho, resmungando, batia o cajado no piso.

 

Não sei pra quê minha filha fez esse convênio de merda, vociferou - O INSS dos antigos e atuais não é merda diferente. O velho parecia um leão na jaula desprovido de comida e fêmea.

 

Me entalei na fila, enquanto lia uma revista ensebada de um ano atrás,adquirida na mesa da recepcionista.

 

Demorou mas chegou minha vez. O médico era um conhecido de muito tempo. Oh! rapaz é você? Me disse surpreso. Não vai mais ao bar do chope por quê? Respondi que andava com problema de pressão. Já vou medi-la. Não, Dr. Não é pressão arterial, é pressão familiar. O médico riu e fez uma chacota sem maldade: pelo que vejo você está sem moral em casa.

 

Dr. Rossi, enquanto marcava os exames, falou da minha idade, do tal toque. Eu pedi uma pausa imperando que só faria, para verificação da próstata, o exame de sangue (psa). Bundinha que mamãezinha passou talco, não. Ele disse que eu quem sabia onde meu bodoque alcançava. Quem brinca com a saúde depois brigará com a doença. Não me convenceu e marcou o (psa).

 

Ele falou que estava encerrando o expediente e que ia passar no bar de sempre. Vamos lá? me convidou. O convite é mais interessante do que o toque, mas eu vou arranjar confusão em casa. Como tínhamos uma certa amizade, ele aproveitou para outra zombadinha. Machão no consultório e um molenga em casa? Inventei que tinha um compromisso, mas acabei indo ao tal bar.

 

Dr. Rossi no segundo chope

 

Por causa do absurdo do trem que cruza a cidade, atrasei-me. Dr. Rossi já estava no segundo chope. Ele estava com mais alguns amigos do bar. Havia um piadista muito bom no humor.

 

O médico, enquanto bebia, fumava um cigarro atrás do outro. Aí, me lembrei do alcance do bodoque dele. O doutor disse ainda sóbrio: “façam o que eu mando, mas não façam o que eu faço.” Passamos do chope para cerveja. De garrafa rende mais, disse o humorista.

 

A dicção do médico estava intraduzível, a minha também porque minha mulher, ao telefone, dizia não entender o que eu falava. Onde você está? Foi ao médico marcado para as 17h? Um bombardeio de perguntas sem respostas. Estou escutando falação de bêbados – disse ao final. Ela já sabia onde eu estava. Em poucos minutos ela encostou o carro. Ih! Colega, a mulher chegou, cochichou o médico.

 

Pedi para o garçom fechar a minha conta. Aposto que você não foi ao médico, esbravejou ela.

 

Calma aí mulher! Aí você perdeu a aposta: está de prova aqui o próprio doutor. Você falou do tal bodoque e eu vim ver onde o meu alcançaria.  Eu ia fazer o teste agora, mas você chegou para me atrapalhar.

 

 



23/04/2007
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