Laércio, após um mês de planejamento, pôs a família no carro e rumou a Campos do Jordão. Vários pedágios e uma multa de trânsito indevida o atraiçoariam nas estradas.
O trajeto, num dia de muita chuva, findaria nas Termas Regional de Campos do Jordão.
De segunda a domingo o tempo da estada do empresário com a família no Vale, entre as montanhas da serra da Mantiqueira, seria de muito sol com um frio de temperatura baixíssima e intermitente às noites.
As casas, totalizando sessenta, são de construção antiga, mas confortáveis. A poesia do local está presente num visual fantástico de muito verde e outras cores naturais.
A floresta densa, de mata nativa, cobre o que a vista pode alcançar. Azaléias graúdas embelezam os caminhos e arredores das casas num colorido terapêutico. Laércio deixou o stress antes de adentrar no hotel-fazenda.
Ele, precavido, desligou o telefone celular para menosprezo total aos compromissos.
Hóspedes, em filas, saiam da recepção e lotavam as casas frias. A tarde caia junto com a temperatura. O sol escondeu-se rapidamente atrás da serra e a temperatura de três graus centígrados positivos levou todos ao inevitável aquecedor.
No caminho tinha um cão feroz
Laércio, a esposa, filhos e nora, logo cedinho do dia seguinte, foram ao ponto mais alto da região, o Mirante, com uma visão indescritível. Em dia de sol, como foi o caso de sorte, desta família bestificada pelo o deslumbre da Serra da Mantiqueira, naquele trecho, a visão abrange vários cidades do Vale.
Havia uma caminhada programada com monitores e tudo ao Mirante. Laércio confundiu o horário e resolveu fazer o passeio com a família. A certa altura do trajeto Felipe subiu com a namorada numa árvore de fácil escalada para uma foto.
Nesse ínterim os que estavam no chão foram surpreendidos por um enorme boxer que fugira de uma casa isolada na floresta. O cão, com aparência voraz, veio, como uma bala, na direção dos desprotegidos. Cão que não ladra, não morde, tentou Laércio sair psicologicamente do desespero.
A palidez de todos media o tamanho do enorme susto. Em segundos todos conseguiram subir na árvore. Uma eternidade de vinte minutos deixou os medrosos e cansados pendurados nos galhos. Por sorte passou um veiculo e o cachorro o seguiu no sentido contrário ao Mirante.
Os cinco desceram da árvore e seguiram a caminhada que virou corrida. Quarenta e cinco minutos foram feitos em substituição aos quinze de tempo normal, apesar da íngreme ladeira.
O declive do frio acentuava-se a cada segundo enquanto os cinco apreciavam as belezas naturais e artificiais na descida montanhosa e lá embaixo nas várias cidades do Vale.
E o boxer no caminho de volta? Indagou a esposa, a caminhante que mais amarelou ao subir na árvore.
O Mirante é um final de estrada onde a única continuação seria cair num abismo quilométrico – ali tudo é muito alto, bonito e assustador. Num olhar de pavor todos presenciaram o cachorro dobrando a última curva. Meu Deus! Disseram todos.
Bastou um afago para acalmar o cão
O cão aumentou o passo, agora com mais cadencia e voracidade. Por sorte, atrás do Sheik, apareceu o grupo da caminhada. O monitor, ao megafone, avisou que o Sheik era dócil. Laércio confiou, desconfiando.
Laércio apagou o medo e fez carinho no Sheik. O cão, de inteligência surpreendente, pareceu abobado ou talvez desconfiado por causa dos precedentes maldosos. O cozinheiro do restaurante, por maldade ou incompetência humana o tratava mal.
Sheik sentiu confiança na atenção de Laércio e entrou de cabeça. A amizade cresceu em progressão geométrica - cada segundo devia medir um mês no tempo, do cão que agora parecia uma criança cheia de brinquedos e doces.
Sheik virou amigo de Laércio e passou a acompanhá-lo nas caminhadas e suportar uma temperatura baixíssima à porta do grande amigo.
O turista insistira, em várias noites geladas, que o novo amigo adentrasse à casa, mas por educação ou traumas anteriores, o dócil animal o esperava para segui-lo ao café da manhã diariamente.
Laércio, naquelas curtas férias, apagou o stress, mas ao se despedir do leal amigo, o fez com sofreguidão.