O medo se parece muito com a burrice, tanto é que ele também existe nos animais. O cavalo não se joga no abismo, o burro também não. O instinto animal, mesmo pobre de inteligência, afunda-se em medo.
Na infância, dependendo do medo e do tamanho dele, o sujeito com predicados muitas vezes exclamativos por serem traumáticos, pode ser empurrado para o abismo. Em muitos casos é salutar ter medo, em outros é bom não temê-lo.
Ter medo de usar drogas parece algo inteligente. A coragem de usá-la colherá o revés, com certeza cabal.
Medo burro é aquele que nos tira a chance de progredirmos. O inteligente evidencia-se no oposto.
Medo de enfrentar as adversidades nos próximos passos é um entrave que abre crateras enormes em nossos caminhos. O temor em competir é dos mais nocivos.
A insegurança deve ser parente próximo do medo; o susto avalista do precipício, o receio deve ser um medinho que abre os olhos para ver e evitar o medão.
Quem já não teve algum tipo de medo? Eu já tive os meus.
Mudando a história de direção
As sementes que fazem nascer o medo são inúmeras – um infinito sem chegada. Se eu não mudar o rumo desta estória o leitor vai me procurar para esganar-me. Como não sou lá de encarar briga, a mudarei abruptamente. Deve ser por medo.
Um amigo daqueles que se metem até onde não deve, confidenciou-me um medo que o atormenta. O cara é metido a machão e, até que às vezes demonstra sê-lo. Pela minha psicologia e amizade, notei que o amigo blefa, com alguns deslizes. De resto é um sujeito boa praça
Ele disse, na confidência, que a idade anda mexendo com seu metabolismo. Não é tanta idade assim, meio século não pode interferir ao ponto de tanta preocupação, retruquei.
Disse-me que com sabedoria aprendeu a não ter medo do passar do tempo. Esta sabedoria não me pareceu verdadeira. Fiz vista grossa para não interrompê-lo.
A preocupação do amigo estava descambando para o medo, quase pavor.
Tentação desgovernada
Pausadamente ele começou escolhendo as palavras: “É dito por muitos que sou ignorante, machão e... Dizem que digo que não tenho medo de nada. Rotularam-me disso e daquilo. Estou inócuo a estes disse-que-disse”.
E continuou. “Como você sabe meu amigo escritor, estou casado há mais de uma década. Adoro minha esposa, mas uma tentação desgovernada vem me atrapalhando o sono. Aquela namorada dos tempos de faculdade que você deve se lembrar, enviuvou e anda insinuando chamego comigo”.
- Não tenho coragem... mas quando a vejo minha testosterona parece empurrar pensamentos libidinosos para lugares perigosos.
- Faz muitos anos que namoramos – seria muito bizarro um envolvimento com ela agora.
Fico pensando se isso, se aquilo e caio numa dúvida atroz.
- Se eu criar coragem e marcar um encontro? Se ela topar, se minha esposa souber e se o rótulo de canalha apoderar-se de mim?
- Tudo isso dá medo. Mas o medo maior é o de eu brochar com ela.
Concluiu o amigo, contrito.