Algumas oportunidades inoportunas me escaparam de visitar o Norte deste Brasil imenso e riquíssimo. Mas no limiar da sorte ou do azar a chance surgiu meio gratuita.
Ai eu fui para a maior cidade da região que e pequena perto de Campinas, por exemplo. Eu estava lá diante daquela beleza que o mundo inteiro admira e respira.
Num dado momento de displicência escorreguei na ribanceira e cai no rio. Fui levado para o meio da correnteza. No principio não me assustei porque nadava bem. Meus colegas da excursão, inutilmente, tentaram o socorro.
Desci feito uma bóia de isopor no meio do rio. A teimosia fluvial impedia meu acesso as margens do imponente rio.
Era como se a correnteza imperasse aos meus cinco sentidos: você vai ficar no meio do rio e pronto.
Após algumas horas nadando eu sentia o corpo pesado, exaustivamente pesado, mas eu não podia esmorecer.
De repente um vulto estranho surgiu as minhas costas. Apesar do raciocínio inebriado, senti medo e interesse por aquele corpo que ora flutuava, ora imergia. Será um jacaré? Será um barquinho?
O madeirite quase me atropelou. Agarrei-o com unhas e dentes. Senti-me motorizando um potente iate. Fui descendo sem rumo, porem com certa segurança.
Passei a usufruir da beleza das florestas contíguas as margens e da água cristalina que me conduzia não sei para onde.
A noite veio trépida
O sol se escondia por trás da mata alta. A sombra do entardecer trazia um frio suportável. O rio se estreitou e a turbulência quase me tirou a prancha de madeira. Pensei que morreria comido por um jacaré, de fome, (jamais de sede) ou afogado.
A noite veio tépida, por isso a temperatura me trouxe amenidades. Meu horizonte galopava para o imprevisível.
Nada de socorro. Eu só via o branco da água no reflexo da lua e a escuridão da mata densa. O madeirite tinha um arame com varias voltas. Acho que cochilei, preso ao compensado pelo bendito arame.
A luz solar, lentamente, veio iluminar a floresta, o rio e o céu azul anil. Ate então eu só via estas três coisas.
De repente uma quarta novidade: o mar. Pensei na pororoca que eu conhecia da televisão.
O perigo iminente. Um barulho ensurdecedor, o impacto. O arame rasgou minha pele e o compensado desapareceu naquelas duas montanhas de águas doces e salgadas. Debati-me ate perder todos os sentidos. Bebi muita água doce e salgada.
Fiquei afastado da pororoca assistindo dois tubarões destroçarem meu corpo. Deglutiram-me vorazmente. De cócoras, sobre o mar, assisti inerte a cena da minha sina. Sobre o mar, na minha direção, um casal deslizava veloz. Eram meus pais. Abraçaram-me e me deram as mãos.
Fizemos uma viagem rápida pelo espaço sideral. Falaram pouco, mas disseram que me amavam, como nos velhos tempos.
Perguntei para onde íamos. Não se preocupe, disse-me mamãe.
Chegamos a um lugar muito bonito. Entramos num imenso, um lugar impossível de existir para mim antes do naufrágio. Minha mãe falou que naquele lugar só havia uma estação: a primavera. Aqui não precisamos das outras estações, minha mãe falou baixinho como em vida.
Vi muita gente famosa: John Lennon, Elis, Luiz Gonzaga, Chico Xavier, Madre Paulina e muitos outros. Não vi nenhum político, ainda bem.
Eu tive vontade de perguntar se ali era o paraíso, mas nisso o despertador estridulou varias vezes. Era o compromisso das 8h que me acordava.