Brasil - Santos - 9/9/2010
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Causo e Conto
Pedro Firmino Sampaio - é empresário no ramo da engenharia, escritor e contador de causos
Que sonho, rapaz!

 

Algumas oportunidades inoportunas me escaparam de visitar o Norte deste Brasil imenso e riquíssimo. Mas no limiar da sorte ou do azar a chance surgiu meio gratuita.

 

Ai eu fui para a maior cidade da região que e pequena perto de Campinas, por exemplo. Eu estava lá diante daquela beleza que o mundo inteiro admira e respira.

 

Num dado momento de displicência escorreguei na ribanceira e cai no rio. Fui levado para o meio da correnteza. No principio não me assustei porque nadava bem. Meus colegas da excursão, inutilmente, tentaram o socorro.

 

Desci feito uma bóia de isopor no meio do rio. A teimosia fluvial impedia meu acesso as margens do imponente rio.

 

Era como se a correnteza imperasse aos meus cinco sentidos: você vai ficar no meio do rio e pronto.

Após algumas horas nadando eu sentia o corpo pesado, exaustivamente pesado, mas eu não podia esmorecer.

 

De repente um vulto estranho surgiu as minhas costas. Apesar do raciocínio inebriado, senti medo e interesse por aquele corpo que ora flutuava, ora imergia. Será um jacaré? Será um barquinho?

 

O madeirite quase me atropelou. Agarrei-o com unhas e dentes.   Senti-me motorizando um potente iate. Fui descendo sem rumo, porem com certa segurança.

 

Passei a usufruir da beleza das florestas contíguas as margens e da água cristalina que me conduzia não sei para onde.
 
A noite veio trépida

 

O sol se escondia por trás da mata alta. A sombra do entardecer trazia um frio suportável. O rio se estreitou e a turbulência quase me tirou a prancha de madeira. Pensei que morreria comido por um jacaré, de fome, (jamais de sede) ou afogado.    

 

A noite veio tépida, por isso a temperatura me trouxe amenidades. Meu horizonte galopava para o imprevisível.

 

Nada de socorro. Eu só via o branco da água no reflexo da lua e a escuridão da mata densa. O madeirite tinha um arame com varias voltas. Acho que cochilei, preso ao compensado pelo bendito arame. 

 

A luz solar, lentamente, veio iluminar a floresta, o rio e o céu azul anil. Ate então eu só via estas três coisas.

 

De repente uma quarta novidade: o mar. Pensei na pororoca que eu conhecia da televisão.

 

O perigo iminente. Um barulho ensurdecedor, o impacto. O arame rasgou minha pele e o compensado desapareceu naquelas duas montanhas de águas doces e salgadas.  Debati-me ate perder todos os sentidos. Bebi muita água doce e salgada.

 

Fiquei afastado da pororoca assistindo dois tubarões destroçarem meu corpo. Deglutiram-me vorazmente. De cócoras, sobre o mar, assisti inerte a cena da minha sina. Sobre o mar, na minha direção, um casal deslizava veloz. Eram meus pais. Abraçaram-me e me deram as mãos.

 

Fizemos uma viagem rápida pelo espaço sideral. Falaram pouco, mas disseram que me amavam, como nos velhos tempos.

 

Perguntei para onde íamos. Não se preocupe, disse-me mamãe.

 

Chegamos a um lugar muito bonito. Entramos num imenso, um lugar impossível de existir para mim antes do naufrágio. Minha mãe falou que naquele lugar só havia uma estação: a primavera. Aqui não precisamos das outras estações, minha mãe falou baixinho como em vida.

 

Vi muita gente famosa: John Lennon, Elis, Luiz Gonzaga, Chico Xavier, Madre Paulina e muitos outros. Não vi nenhum político, ainda bem.

 

Eu tive vontade de perguntar se ali era o paraíso, mas nisso o despertador estridulou varias vezes. Era o compromisso das 8h que me acordava.

 

 



22/06/2008
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