Há mais de duas semanas, os jornalistas foram comparados a cozinheiros pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal.
Minha indignação não se situa no terreno de ambas as profissões, no sentido de querer valorizar uma em detrimento da outra. É que são funções tão diferentes, que causou estarrecimento, muito mais partindo de uma autoridade daquela categoria.
Demorou a entender o que aqueles senhores representantes do Judiciário levaram em consideração para desregulamentar a profissão de jornalista e, ato contínuo, acabando com a obrigatoriedade do diploma para o exercício dessa atividade. Tudo foi se clareando depois.
Devem ser vários os motivos dessa decisão, mas não pensem que foi para o grande benefício da nação e para a melhoria da comunicação e informação.
Muito pelo contrário: daqui para frente, o poder ficará mais acentuado nas mãos dos setores patronais, os proprietários dos meios de comunicação.
Até então, mesmo sendo deles a decisão do que publicar, cabia ao jornalista a pesquisa, a investigação, a isenção de interesses na seleção e elaboração da notícia. Isso a partir de regras, códigos de ética, dever de levar ao consumidor a verdade, denunciando sempre que existia a necessidade e o ato falho.
Nos parece, no entanto, que a maior causa do ato do Supremo foi o medo e a vontade de que suas mazelas fiquem escondidas e longe da exposição pública.
É uma tentativa de inibir as inúmeras denúncias de suas atitudes estapafúrdias ou de suas inércias diante de fatos que estariam a exigir a interferência desse Poder.
Assim como, em conchavo com os demais Poderes da República, quebrar a força da mídia, que tem oferecido seus espaços para denúncias da corrupção que campeia num crescimento assustador.
Outras bases devem existir para a medida. Aliás, essa pauta é antiga, só que passeava pelas salas e gavetas do Supremo e não havia clima para a sua análise. É que agora os dignos juizes estavam com indigestão de algum cardápio apimentado e eles analisaram pelo estômago, não com a cabeça.
Suas necessidades fisiológicas ficaram patentes e quem levou o pato foram os cozinheiros. Aliás, as cozinhas vêm ganhando força no atual quadro brasileiro.
Outra vergonha nacional, o Senado, nos apresentou mais um discurso proferido pelo seu Presidente, o Sr. José Sarney. Para se eximir dos atos secretos de nomeações indevidas e do abuso do poder, ele disse que não pode ser culpado pela sujeira da cozinha do Congresso, que já estava instalada há muito tempo.
Tirando o lado político e o horror que autoridades vertem pela imprensa, uma nova crise paira agora sobre a educação: os cursos de comunicação, até então formadores de jornalistas vão sofrer um processo de esvaziamento.
As universidades investiram em equipamentos, exigiram de seu corpo docente formação de mestres e doutores, abriram novas áreas na cadeia comunicacional, e, além da técnica, criaram laboratórios para preparar os alunos à vida profissional.
Só aqui na Baixada Santista, apesar de poucas ofertas de trabalho, são centenas de habilitados todos os anos, muitos deles fazendo carreira fora das nossas fronteiras. Um país que, ao invés de incentivar a criação de cursos e de valorizar profissões, usa suas mãos para ceifar o que está instaurado não merece respeito.
A democracia fica cada vez mais pobre, porque somente através da educação é que teremos um povo mais preparado e pronto para melhor escolher seus representantes.
Será que quem está no poder quer isso? Achamos que não. Eles preferem continuar comendo o que as suas cozinhas imundas oferecem, para depois arrotarem essas aberrações que temos visto.