Brasil - Santos - 9/9/2010
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Toca o Bonde
Rene Ruas - é escritor, toca cavaquinho e faz parte do grupo de samba Ouro Verde e do Clube do Choro de Santos
Firulas e parangolés

 

Veiguinha Blablablá malandro sem eira nem beira, sem passado e sem futuro, vivia de pequenos expedientes, mais conhecido como pequenos furtos, ou seja, roubava e vendia miséria.

 

Veiguinha era cheio de firulas e parangolés e por ter o corpo todo tatuado era conhecido também, no cais, como Gibi. Vivia na corda bamba, roubava aqui, vendia ali.

 

Na maior parte do tempo ficava escondido que nem rato no mangue. Veiguinha Blábláblá bom de conversa, conseguia vender o que queria, vendia jornal pra cego e até batina pra pastor.

 

Quando não tinha nenhum produto de roubo pra vender, conseguia umas merrecas tirando carteira de identidade pras putas da zona recém chegadas do interior sem documentos.

 

No fundo era um pixulé, um pereba, um ladrão de galinhas, afinal, Veiguinha Blablablá, para o mundo, tinha o mesmo peso, a mesma importância de uma cuíca no velório.

 

Não servia pra nada mesmo. Veiguinha atuava na zona, na boca do lixo, entre navios e marinheiros, na sombra, escondido entre os velhos armazens de café da General Câmara e João Pessoa.

 

- E aí mano velho? Como vai ?

 

Não esperava resposta e já emendava.

 

- Comigo tá tudo nos conforme, vou levando a vida como Deus quer. Como bosta n’agua, onde a onda for eu vou. To respirando tá tudo bem.

 

Numa roda de caminhoneiros, clientes preferidos, chegava na maciota:

 

- Meu bom, meu irmão de estrada, tenho um negócio aqui de irmão pra irmão. Pronto, dito e feito. Mais um mané na longa lista de otários do Veiguinha Blablablá.

 

- Tenho um rádio pro seu caminhão, coisa fina, tirei do porão do navio agorinha. Não tem na cidade rádio igual, última geração. Se o mano velho gostar pode ficar, tenho mais uma dúzia. Avise o pessoal.
 
 

Depois de um golpe, sumia do mapa

 

Pra variar armou e se deu bem. Vendeu todos, todos não, só um camarada, pois só o primeiro existia os outros eram apenas caixas com pedaços de tijolos muito bem embalados. E, como sempre fazia, depois de um golpe, sumia do mapa. Desaparecia do cais.

 

A vida rola pois que a terra é redonda, o dinheiro acaba, já era e chega a hora de pagar o quarto da miserável pensão que ficava lá pelos lados do Valongo quase já nas breubas do Chico de Paula e retornava para mais um golpe. Carteira de Habilitação falsificada, canetas, relógios e o escambau e a mesma conversa:

 

- E aí mano velho? Como vai?

 

Como sempre fazia, não esperava resposta e logo respondia:

 

- Pois é mano tamos aí. Tô respirando tô no lucro. Mais um mané.
 

Arrumava uns trocados e sumia. O rato voltava para o esgoto. Depois de alguns dias fora de circulação, voltava, pois, o amigo leitor bem sabe que cobra que não anda não engole sapo. Precisava fazer dinheiro.

Entrava no bar da Gostosa, ali na boca, já anunciando:

 

- Fala aí moçada, tudo bem? To por aí, to na área se cair é penalti, se vacilar bato escanteio e corro pra cabecear que é o seguinte mano velho, Deus criou o mundo certo, se não fosse os otários, os manés, como é que os malandros iam viver. Se achava o rei dos malandros.

 

No fundo do bar, caindo pelas tabelas, o já aposentando Dimas o Bom Ladrão implora:

  

- Veiguinha meu bom, meu camarada, to na pior, so o mano pode me ajudar. Tenho aqui um rádio toca-fitas de primeira, verdadeiro campeão de bilheteria que malhei de um caminhão do Paraná e preciso fazer dinheiro, fica com ele, mano, preciso pegar o feijão com arroz.

 

Veiguinha ficou com o rádio e o Dimas o Bom Ladrão ficou com o prato de feijão com arroz. No início da noite Veiguinha foi até a parede da estiva e logo foi oferecendo o rádio. O pessoal da estiva não cruzava bem com o Veiguinha, mesmo porque o cara não tinha amigos, para ele todos eram manés.

 

Nego Carvalho, primo do Mendonça o mão de onça, negão da pesada que tinha queimado algumas carteiras de identidade logo na primeira olhada reconheceu o rádio roubado na noite anterior.

 

Veiguinha Blablablá deu muito azar, muito azar mesmo. Mais uma RG na triste coleção do Carvalho. Deram com o corpo do Veiguinha jogado no mangue como um rato. Comida de rato e toca o bonde.

 

 



14/07/2009
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