A vida corria solta naquele pedaço, que, era, pra molecada, o centro do mundo. Tudo começava e terminava alí. Naquele pedaço o tempo andava bem devagarinho. A vida seguia seus períodos como as estações do ano se repetem ano após ano.
Se o tempo era de bolinha de gude, tome bolinha de gude, se o tempo era de pião, tome pião. Se, carnaval, tome desfile de carros alegóricos em miniatura. Se o tempo era de espeto, se era de fogareiro, tome espeto e tome fogareiro pra assar batata-doce. Bola? Bola não tinha tempo, de noite, de dia, de segunda a segunda, tome bola que gosto maior não tinha.
O que não podia faltar também e não faltava mesmo era o trio arrasa quarteirão, quebra-queixo, puxa-puxa e raspadinha.
Não, caro internauta, não era o trio atacante da seleção marapeana de futebol e nem tão pouco o meio de campo da seleção portuguesa de Zé Fidélis. Aliás, a seleção do grande comediante Zé Fidélis era formada assim: Não-pega-uma, Cara-de-besta, Pisa-Calo e Sardento. Barrigudinho, Manquitola, Deixa-que-eu-chuto e Panarício. Totó, Ranheta e Facada.
Quebra-queixo, puxa-puxa e raspadinha, como todos esperavam, não atrasava e nem faltava, passava todas as tardes como o realejo da canção popular. Chegava no carrinho do bom baiano Seu Honorato, dono da simpatia, boné e avental tão branquinho quanto o capucho do algodão, o nome bordado em vermelho no bolso e o sorriso largo já anunciando:
- Vamos molecada, vamos comprar porque a vida não inflói nem contribói!
Comer o quebra-queixo, o puxa-puxa e a raspadinha era a loucura da molecada só igualável pelo futebol na rua, afinal não tinha doçura maior. Dinheiro não havia, dentista também não, mas como deixar de saborear a delícia das delícias. O dente podre ficava pra depois.
Moleque nenhum tinha dinheiro. Brincar na rua era o limite. Se dinheiro não havia, afinal, como assistir os palhaços do Circo e Teatro Bibi? Como assistir as matines do Cine Marapé? E a raspadinha? O quebra-queixo? O puxa-púxa? Sem dinheiro, só jogando bola.
Pra arranjar uns trocadinhos a molecada dava seu jeito. Carrinho de rolemã pra fazer carreto na feira. Engraxar sapatos na cidade ou vender gibi velho na porta do cine Marapé. Sempre se conseguia um dinheirinho e, assim, se garantia os doces do Seu Honorato.
Comer os doces do bom baiano era uma das paixões da molecada daquele canto do mundo. Logo, porém, a molecada percebeu que o tempo não passava tão devagarinho assim e que alí também não era o centro do mundo.
O quebra-queixo, o puxa-puxa e a raspadinha, certo dia, desapareceram junto com o Seu Honorato e, aí a molecada entendeu que a vida, caro leitor amigo, não "inflói nem contribói".