Recentemente estive com minha família num hotel fazenda em Salto Grande, na divisa de São Paulo com o Paraná. O lugar, onde já estivemos várias vezes, é lindo.
As férias curtas começaram meio apagadas. Quando chegamos à pousada, a população das sessenta casas, já dormia.
A penumbra do amanhecer mostrava uma cara feia. O orvalho cobria a vegetação, deixando-a bela, mas empobrecida para o lazer matutino.
O sol iniciava o dia, escondido atrás das nuvens, meio apático. Aos poucos o vento foi empurrando as nuvens para outras bandas.
O bendito sol começou a sorver, com raios furta-cores, as gotículas de orvalho. Uma réstia que cobria a encosta foi diminuindo e a luz solar apareceu inteira.
Sempre que faço este tipo de passeio, costumo tirar algumas horas para andar, sem companhia, no meio da mata.
Essência ensolarada
Escolhi um trajeto de mata rala para não perder a essência ensolarada que aquecia toda a região. Mergulhei na natureza de corpo e alma.
Parei para apreciar um sabiá alimentando um marmanjo do seu tamanho. Pelo jeito o malandro filhote acabara de sair do ninho.
Agarrado aos galhos recebia o alimento que a mãe colhia num cacho de coquinhos na árvore vizinha.
A mãe orientava o molenga para que ele voasse para a árvore dos coquinhos. O covarde só sabia abrir o bico para pedir mais comida.
Eu já estava impaciente tanto quanto aquela mãe. Enfiei-me mais para dentro da mata. Deparei-me com um caminho de formigas. Milhares trabalhavam.
Os construtores das pirâmides do Egito devem ter se inspirado no esforço e inteligência dessas criaturas fabulosas, pensei.
Folhas a tiracolo
Parei para observá-las. Metade delas dirigia-se ao formigueiro com folhas a tiracolo, a outra metade retornava com as costas vazias. Adversidades e preguiça inexistem para as formigas.
Embasbacado, sentei-me numa pedra à beira do caminho dos sitiantes. Atolei-me na irresponsabilidade e esqueci o tempo de voltar.
Observei a assiduidade, a tenacidade e a disciplina das pequeninas heroínas. Fiquei com inveja e saí da pedra para continuar a caminhada.
Aquele momento me levou à adolescência, revivi coisas de um passado longínquo: instalei-me na fazenda de meu pai, e revivi um saudoso inverno.
Ajudei no plantio de milho, feijão e algodão. A roça era enorme. Em poucos dias os brotos cobriam a terra com um verde frondoso de encher os olhos.
Caça aos buracos
As formigas eram os bichos-papões destruidores das lavouras. Um exército de formigas, de vários formigueiros, organizava-se para cortar as folhas recém-nascidas.
Meu pai, num mutirão inusitado, muniu-se dos apetrechos para o combate.
Saímos à caça dos buracos de formigueiros. Encontramos incontáveis buracos à volta da roça. O veneno misturado às brasas encheu dois foles, por várias vezes.
Enquanto dois homens fortes ‘sanfoninavam’ os foles, meu pai comandava o fechamento dos buracos, com punhados de barro, para que as formigas não escapassem.
Havia formigueiros com dezenas de saídas. A fumaça branca do veneno ia anunciando, a vários metros de distância, as aberturas misteriosas.
Sobravam apenas as formigas que estavam no trajeto da roça, indo ou vindo. Até a reorganização das sobreviventes, a lavoura crescia e se tornava imbatível.
Enquanto meu pai, em invernos seguidos, matava as formigas que dizimaria sua lavoura, o todo poderoso Estados Unidos matavam milhares de vietnamitas e os ditadores brasileiros torturavam e matavam intelectuais.