São dois instrumentos ancestrais. Dois músicos que se ocupam eminentemente da tradição oral. Juntos, fizeram um disco maravilhoso. Estas três frases resumem do que se trata Violas de Bronze, disco recém-lançado em parceria pelo violeiro caipira que se ocupa da música do centro-oeste, Roberto Corrêa, e o rabequeiro, que toca os sons da zona da mata nordestina, Siba.
A ideia da realização do disco vem de lá de trás, do tempo em que Siba participou do álbum Extremosa-Rosa, de Roberto, gravado em 2002. O projeto ficou na fervura todo esse tempo. Nunca esmoreceu.
Por mais irônico que possa ser para artistas que se ocupam de tal universo, a troca de ideias, composição, repertório, arranjos etc. deu-se por correio eletrônico.
A comunicação por e-mail é apenas um dos indícios do que os dois artistas têm em comum. Apesar de trabalharem com as tradições populares, tanto um quanto o outro são abertos aos movimentos em volta, aos novos ventos. Movimentos, é bom lembrar, naturais, espontâneos. Nenhum deles se arvora a entrar em ondas postiças. O que fazem tem origem, mas está longe de ser folclórico. O que não impede que as suas viagens musicais voem para muito além de onde vieram.
Os dois juntos formam um terceiro tom, mais aberto ainda. Encontram-se nas tradições e trabalham nas transformações. Dialogam com seus instrumentos, buscam coisas em comum e fundem outras absolutamente distintas. O resultado final é uma gravação cheia de surpresas, onde a viola caipira do Goiás e adjacências, junto aos sons da rabeca e da viola nordestina viram sons do Brasil. De todo o Brasil.
A única composição dos dois é justamente a que abre o disco. Cara de Bronze é baseada no conto homônimo de Guimarães Rosa do livro Corpo de Baile. Um dos textos mais obscuros e belos do autor é transformado numa moda narrativa ponteada por um aboio.
No contraste dos dois momentos vem a sensação de pausa e movimento que nos causa o texto original. Uma canção repleta de assunto e beleza, que não só valeria todo o disco, como também justificaria o prosseguimento da parceria.
No entanto tem muito mais ao longo do disco. Uma sucessão de ousadias que mistura rasqueados, ponteios e toques populares com proposições contemporâneas. O exemplo mais evidente disto é a excêntrica e bem-humorada Big Brother Mental, de Siba: "Para eu pensar mais aprumado/ Quero um computador/ Com um bom processador/ Na minha testa instalado/ E um modem parafusado/ Na coluna vertebral".
E é isso. Feito de ancestralidade e futuro, Violas de Bronze é, acima de tudo, um disco lindo, bom de se ouvir. Um disco carregado de erudição, mas que pega o ouvinte de cheio, seja ele o das poltronas de couro e bibliotecas ou o das folias de rua.
Clique aqui para ouvir trecho da música Cara de Bronze.