Brasil - Santos - 9/9/2010
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Todos os Tons
Julinho Bittencourt - é jornalista, músico e atualmente reside em Brasília.
A voz da América

 

O auditório do Palácio das Convenções do Anhembi estava completamente lotado. A temperatura, naquela altura do show, era alta. A argentina Mercedes Sosa cantava músicas do continente, que diziam respeito a todos nós, brasileiros que ainda vivíamos sob a ditadura; avós argentinas que procuravam seus entes desaparecidos; chilenos que contavam seus mortos emparedados no estádio nacional e por aí afora.

 

O público não se continha mais, estava todo de pé, aos brados junto com a artista, como se exorcizasse as suas mazelas. Ali não havia apenas uma voz, um canto como qualquer outro. Poucos artistas haviam atingido, até então, aquela dimensão.
 
Sua voz grave e inconfundível ultrapassava todos os limites de uma técnica perfeita. As canções que entoava e o pequeno grupo que a acompanhava eram uma sentença definitiva a quem ousasse negar o que ela dizia. Aqui do Brasil, ou de qualquer parte da América Latina, havia alguém que cantava por nós.

 

Ou com todos nós. O auditório incendiou de vez com a Canción con Todos, com letra do poeta A. Tejada Gomez e música do compositor Cesar Isella, ambos argentinos: "Todas las voces todas, todas las manos todas, toda la sangre puede ser canción en el viento; canta conmigo canta, hermano americano, libera tu esperanza con un grito en la voz". Mercedes batia seu bombo legüero e cantava de braços erguidos, regendo a multidão emocionada e aflita.

 

Na naquele instante um rapaz invadiu o palco na sua direção. Foi cercado pelos seguranças. Estes, segundos antes de chegarem a ele, foram interceptados por La Negra, com apenas um dedo em riste. A cena congelou. Em seguida, a cantora chamou o rapaz, que a abraçou e beijou seu rosto suavemente. A plateia, que durante aqueles intermináveis instantes havia se calado, explodiu novamente. Aquele menino atrevido havia sido um interlocutor de todos.

 

As ditaduras na América do Sul se foram, ao que parece, definitivamente. O talento de Mercedes Sosa se voltou para canções mais prosaicas, cotidianas e, com isso, um tanto da sua aura mítica e revolucionária se esvaneceu. Seu talento irretocável, no entanto, permaneceu por outros ângulos e meandros. Mercedes continuava a ser a voz da América, a cantora dos oprimidos e espoliados, a artista que levava ao grande público, afeita à indústria cultural, algo da tradição oral, tanto do seu país quanto dos hermanos vizinhos.

 

A sua importância para a Argentina e também para toda a América do Sul, ainda está para ser desvendada. Como disse o jornalista, amigo e biógrafo da cantora, Carlos Braceli, ao repetir tranquilamente o lugar comum de que Mercedes não morreu, acrescentou o que os argentinos falam de Carlos Gardel: "Ela canta cada dia melhor".

 

Gardel é talvez o maior símbolo que os argentinos têm de si e do significado de pátria. Ao morrer, Mercedes Sosa se coloca como seu avesso. Enquanto ele situa o seu povo num contexto histórico e afetivo, ela inclui na história os que estavam fora dela.

 
 
Clique aqui para ver e ouvir 'Gracias a La Vida'
 
 

 



09/10/2009
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