A tranqüilidade é quebrada quando o manhoso e rei da picardia Daniel Feijoada chega anunciando:
- Mano Boto bota aí um galo no 8.
Mano Boto rolou os dadinhos brancos no chão batido e um deu cinco o outro deu quatro, total nove. Quem levou o carvão da roda foi o Nego Dráuzio que logo mandou buscar uma garrafa de morrão do morro pra molhar a alma da rapaziada.
E rolava sossegada a roda de bozó, jogo proibido, contravenção penal. O tal jogo de azar era tão proibido e reprimido que, volta e meia o primo Arara passava uma temporada em cana, além, é claro, de perder uma boa grana nos diabinhos brancos.
Domingo de manhã, no campo da Americana(*), ali na Vila Belmiro, além do grande futebol que rolava no campo, rolava à solta o jogo de bozó.
A roda de bozó era grande: Nego Dráuzio, Daniel Feijoada, Boto, Evilásio, Jumba, Caio, Pacheco, Seu Bahia, Bispo e muito mais. Parece até que a estiva estava toda lá. Negrada da pesada. Verdadeiro Quilombo. Mané não passava nem perto.
A malandragem e a valentia estavam toda ali. A fina flor do samba reunida. Do outro lado do campo, só assistindo, soldados da antiga polícia civil que, como tinham juízo, faziam o que o grande Herivelto Martins já ensinava:
- “Eu sou do tempo em que malandro não descia, mas a policia no morro também não subia”.
E ficavam na deles. A barra era muito pesada.
De quando em vez, quando a rodada da boa de Pernambuco rolava, Seu Bahia, de chapéu panamá de abas largas e o charuto imenso no canto da boca, puxava uma chula raiada batida na palma da mão, acompanhada de adufes e pandeiros:
“Sou nego velho, nego velho caçador, na fumaça da liamba o nego desencantou, Sou nego velho, nego velho estivador, na fumaça da liamba o nego desencantou, Na fumaça da liamba o nego desencantou.”
O destino dos malandros
Meu bom, a bola rolava no campo, mas naquela roda ninguém nem sabia quem estava jogando, pois que os dadinhos é quem mandava no destino dos malandros. A grana era pesada e a cada rodada o valor aumentava.
O trabalho de uma semana no porão do navio se perdia numa pedida errada. A grana recolhida na noite anterior do trabalho suado das meninas na boca do lixo também se perdia ali na roda do bozó. E deixava relógio, anel, aliança e o escambau, que naqueles tempos palavra de malandro era ponto de honra, não tinha vacilo, malandro respeitava malandro.
A malandragem não chiava. Só ensinava:
- Não sou nada meu mesmo. Não fui eu quem me fiz. Se vira malandro que tu não nasceu quadrado.
Perseguido pela polícia, o bozó, mesmo assim, era o jogo jogado na beira do cais. Os dadinhos rolavam tranqüilos, ali, no cais, entre os armazéns e até no porão dos navios, pois que era o território livre da nata da malandragem. Otários e manes passavam ao longe. A polícia também.
Foi num tempo que passou. O campo da Americana também passou. O jogo do bozó, nunca mais, já era. A malandragem passou. Malandros e malandragem nunca mais, por isso mano velho, toca o bonde ser for possível.
(*) O campo da Americana ficava onde está hoje a escola Primo Ferreira, próximo ao estádio do Santos F.C.