Brasil - Santos - 9/9/2010
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Toca o Bonde
Rene Ruas - é escritor, toca cavaquinho e faz parte do grupo de samba Ouro Verde e do Clube do Choro de Santos
Um pequenino grão de areia

 

Aquele cantinho de rua era mágico. Uma quadra. Alberto Veiga. O beco, como a turma chamava, começava na 9 de julho e terminava na Nilo Peçanha. Claro, no Marapé.

 

Eram apenas treze chalés. Treze famílias. Um pequeno mundo. Ainda hoje penso cá com meus botões, que aquele povo vivia para o Carnaval, Festas juninas, Natal e o Ano Novo.

 

Antigos moradores daqueles chalés nasceram e morreram sem passar do canal 1 pra lá, pois eram felizes no seu pedaço. Não precisavam sair dali para ser feliz.

 

Do lado direito do chalé do meu pai, o número 12, moravam Seu César e Dona Áurea. Ele apaixonado por pescarias e motocicletas. Dona áurea era apaixonada por cachaça e garotões. De quando em vez Seu César perdia a paciência e dava uns sossegas iaia na patroa, que nunca reclamava.

 

O tempo rolando e de uma hora pra outra Dona Áurea desapareceu e ninguém mais soube do seu destino. Seu César ficou inconsolável e sozinho até viajar a última viagem. Já bem velhinho comprou uma moto que mantinha no quintal da casa e todo dia trepava na máquina e ligava o motor, só pra matar a saudade.

 

No chalé no lado esquerdo, o número 8, morava o casal Seu Euclides e Dona Líbia. Ela, de origem italiana, tinha os cabelos dourados, olhos verdes e pele clara. Era muito bonita. Talvez, por isso, explicasse a paixão do casal pela Dalva de Oliveira.

 

Seu Euclides era um negro altaneiro, elegante, bigodinho fino, sempre muito bem aparado, além de estar sempre muito bem vestido. Era um homem muito bonito. Era músico. Baterista do Samba Danças.

 

Não sei bem porque, mas toda vez que lembro do Seu Euclides me vem a memória a musica do Ary Barroso: "Sei que falam de mim, sei que zombam de mim, Oh Deus como sou infeliz". Não precisa nem adivinhar, o amigo leitor bem sabe que eu, bem pequenino, não saía de lá.

 

E foi lá que ouvi, encantado, pela primeira vez, e me apaixonei, a voz da Dalva de Oliveira cantando Ave Maria no Morro e muito mais ainda o "Um pequenino grão de areia". Nesses tempos foi que ouvi, na casa do Seu Euclides, a voz poderosa do Dorival Caymmi:

 

"No Abaeté tem uma lagoa escura, arrodeada de areia branca, de areia branca. De manhã cedo se uma lavadeira vai lavar roupa no Abaeté vai se benzendo ... "

 

Eu ouvia essa música sempre a noite antes do Seu Euclides ir pro trabalho. Ia correndo pra casa meio que assombrado pela voz e pela musica. Acordava suado com medo. No dia seguinte lá estava eu de novo na casa do Seu Euclides e Dona Líbia ouvindo Dorival e Dalva de Oliveira, como sempre, até hoje.
 

 

 



29/10/2009
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