Brasil - Santos - 9/9/2010
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Prosa e Mídia
Eunice Tomé - é jornalista, mestre em Comunicação e escritora.
Colecionadores de armas

 

Quando éramos crianças, entre outras brincadeiras, havia aquela, quase uma mania, de colecionar objetos.

Eram selos, bolinhas de gude, moedas, bonecas, soldadinhos de chumbo e, periodicamente, alguma editora lançava os álbuns com as figurinhas que comprávamos nas bancas de jornal.

Artistas de cinema, jogadores de futebol, animais, astros da música, marcas de carros, eram as paixões da garotada, que deixavam nesses registros seus ídolos e ideais.

Ainda hoje temos alguns raros desses colecionadores, porque felizmente ainda sofrem o incentivo dos pais.

Mas a verdade é que mudou o eixo das brincadeiras e tudo passou a ser muito eletrônico e violento, desde os filmes, os CDs, DVDs, cujos personagens são de dar horror, com corpos e rostos disformes e cheios de artefatos que simulam guerras, lutas, destruição, num total realismo fantástico.

E atrás desses símbolos criados pela indústria cinematográfica americana, outras empresas fabricam bonecos, jogos, roupas, tudo com esse viés da violência, como se não bastasse o mundo real que nos mostra os casos em demasia no nosso dia a dia.

Sobre esse assunto, vi recentemente imagens no telejornal que me fez pensar e refletir sobre esse momento que o país atravessa, em especial a cidade do Rio de Janeiro.

Já não é mais novidade para ninguém que a guerra do tráfico é maior que qualquer outra, pois alicia crianças, jovens e adultos, tanto na dependência química, como na comercialização, por ser lucrativa, de fácil transação e envolver até autoridades, que deveriam zelar pela segurança e pela paz nas cidades.
Poder ilimitado

Assim, na disputa por melhores espaços e “clientes”, as facções se enfrentam e o poder desses comandos é ilimitado. As favelas e as comunidades no Rio se digladiam diariamente e a presença da Polícia já não consegue banir os rituais de destruição.

Até pelo contrário, na tentativa de estourar algum ponto de venda de droga, acaba por criar um cenário de praça de guerra, tendo pessoas inocentes como coadjuvantes desse filme de terror.

Assim, voltando ao choque que tive diante da TV, o repórter flagra os garotos recolhendo das ruas os projéteis que foram lançados das poderosas armas, fuzis, metralhadoras, após o confronto.

Iam colocando tudo num saco plástico e, quando perguntado o porquê de guardar esse material, dizem que fazia parte da coleção, já com tantos tipos e tamanhos. Na certa passa a ser um troféu e quanto mais tiverem dessa munição mais será valorizada a sua coleção.

Isso tudo é uma constatação concreta e eles não podem ser culpados, porque são fruto de um meio. Lógico está que nesses ambientes uma campanha do estilo que se fazia no passado de desarmamento infantil, cujos brinquedos que simulavam armas deviam ser banidos das listas de presentes, não conseguiria qualquer sucesso, pois é nos lares, nas escolas, nas ruas, que tudo acontece e não como brincadeira.

Mas que também é verdade que para romper esse ciclo não haverá muita saída, senão pelas vias da educação, tanto em casa como nas escolas, mesmo que a longo prazo. As crianças estão a merecer outros estímulos, para que os livros, a criação e a pureza encontrem um terreno mais fértil. Que bom seria que fossem colecionadores de sonhos!
 
 


17/11/2009
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