Brasil - Santos - 9/9/2010
• Agenda Cultural
• Especiais
• Mural
• Shows
• Achados e Perdidos

 

• Bares
• Cidade 24h
• Cinema & Teatro
• Garfo e Faca
• Na Pista
• Seus Direitos
• Tempo e Serviços
Todos os Tons
Julinho Bittencourt - é jornalista, músico e atualmente reside em Brasília.
Dez Anos sem Plínio Marcos

 

Nenhum tesouro está seguro em seus cofres, quando o pai escuta o filho chorando de fome.

 

Plínio Marcos

 
 

Na sequencia final de “Testa de Ferro por Acaso” (The Front, 1976), filme de Martin Ritt, o personagem interpretado por Woody Allen recebe uma proposta da bancada macartista que o está interrogando. Se entregasse os escritores proibidos pelo qual se fazia passar estaria livre. O até então ingênuo “laranja” se levanta, manda às favas os algozes e segue o corredor para a prisão.

 

A atitude do pequeno herói nos lembra em quase tudo o dramaturgo santista Plínio Marcos. Nas horas necessárias – e também nas mais gratuitas – distribuía gestos, palavras e textos tidos como obscenos para quem, a bem da verdade, os merecia. Fosse quem fosse, por mais engrossado que estivesse o caldo, por mais longa que fosse a ditadura, não queria nem saber. Foram seus alvos desde generais, alcaguetes, até policiais e proxenetas. Para cada atitude espúria, lá vinha o palhaço Frajola com o seu dedo médio em riste.

 

Não queria nem saber se o que vinha do outro lado era tiro ou cana brava. Por conta de dizer o que bem entendesse enfrentou o que teve de ser. Sua arma maior, entre outras como a crônica de jornal e a língua ferina, foi o teatro. Nele contou a história de quem não tinha ninguém com quem contar. Seu personagem era aquele que ficava depois do último, no mais esbugalhado e imundo do planeta. Aquele que mora onde termina a condição de gente.

 

Plínio era o tal que ia lá e buscava o cara de volta. Esfregava o seu herói na fuça do homem de bem, que não aguentava o tranco e saia do seu espetáculo no meio, ofendido. Nas suas peças se fala do mesmo jeito que nas ruas do cais de Santos, nas celas e nos bordéis de quinta. Pior. No seu teatro se age daquele jeito.

 

Mas não fica só nisso. São personagens dotados de sagacidade e vida. São tramas repletas de idas e vindas, de riqueza dramática. É, enfim, um grande teatro brasileiro feito pelo palhaço de circo que só tinha o primário. Pela primeira vez a grande obra tratou da plebe mais rude.

 

Plínio era o nosso herói. Num momento histórico em que só os maus se davam bem, lá vinha ele, de macacão e sandália vendendo seus livros de mão em mão. E não venham dizer que era tipo, pois a única coisa que conseguiu no final das contas foi trocar todos os seus títulos por um apartamento. Toda a sua grande obra pela pequena e digna morada.

 

Este mês faz 50 anos que “Barrela” foi montada pela primeira e única vez antes de ser censurada. Meu pai era um dos atores e isso me enche de orgulho. Faz também dez anos que o Plínio se foi, o que nos enche de tristeza. Naquele dia de nada, a família e mais uma multidão de atores e admiradores lotou a praia do Embaré para jogar as suas cinzas no mar, lá na direção do bairro do Macuco, onde ele cresceu, se criou e virou o cara que foi.

 

Estavam lá a Neusa Sueli e o seu cafetão Vado, o traveco Veludo, o Querô, o Garoto, enfim todos, daquele dia pra frente à própria sorte. O único bardo que os cantava tinha batido com as dez. Estava lá, sendo espalhado no sal dos marujos e das mulheres, em frente à baia dos navios das chegadas e despedidas. Sem deixar ninguém no seu lugar.
 
 
Clique aqui para ver a entrevista de Plínio Marcos no Programa Jô Soares - 1988 - parte 1
Clique aqui para ver a entrevista de Plínio Marcos no Programa Jô Soares - 1988 - parte 2
 
 
 
 
 
 

 

 



19/11/2009
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------
  

Para receber nossos boletins