Tudo bem, a Espanha chega ao seu primeiro título mundial merecidamente, depois dessa vitória de 1 a 0 sobre a Holanda. Mas, se levarmos em consideração os números da Espanha ao longo da Copa, não podemos deixar de sentir o desagradável cheiro da decepção. Afinal, ela chega ao título com a defesa menos vazada e o pior ataque da competição. Não é bem esse o tipo de campanha que o verdadeiro amante do futebol gosta; considerando-se que o grande momento do futebol é o gol.
Aliás, é em função dele que se treina tanto e se montam campeonatos espetaculares como essa surpreendente Copa da África do Sul. E, se considerarmos a história com seriedade, chegaremos à conclusão de que a Holanda, de certa forma, tem participação na conquista. Não com a derrota, mas com a formação da equipe espanhola.
Time campeão, não por acaso
Não pensem que a Espanha ganhou o título por conta de um bom treinador, Vicente Del Bosque, ou porque conseguiu reunir uma geração espetacular. Tudo que se viu nestes últimos 120 minutos da Copa foi resultado de um trabalho que começa 11 anos atrás, em 1999, quando os dirigentes espanhóis encontravam-se diante de um verdadeiro caos futebolístico e quase sem solução.
Coragem, paciência e muito planejamento levaram os clubes espanhóis a tomarem decisões cujo resultado se viu neste domingo, dia 11. A aposta foi bastante simples: investimento nas divisões de baixo, nas categorias de meninos, única saída que evitaria a importação de jogadores, iniciativa equivocada que a Itália assumiu e viu a Inter de Milão chegar ao título mundial interclubes sem um italiano como titular. Na Copa ficou escancarada a falha italiana.
Além dessa lição básica, os espanhóis apostaram em seu próprio campeonato. Com a valorização de jogadores da terra e um torneio muitíssimo bem organizado, os espanhóis conseguiram, em pouco tempo, colher os primeiros frutos. Foram campeões olímpicos em casa, Barcelona, levaram a Copa Européia de Seleções, dirigidos por Luiz Aragonéz e nem mesmo a derrota na final da última Copa das Confederações (perderam para a Alemanha) foi suficiente para alterar o projeto.
A saída foi simples: tiraram Aragonéz e colocaram Del Bosque. Este, inteligentemente, fez poucas alterações e procurou se utilizar de um sistema de jogo que vinha lá das terras baixas, a Holanda. O modelo? O time do Barcelona, equipe que, estatisticamente, mantém mais tempo a bola sob seu domínio. Foi uma decisão sábia. A Espanha, apesar de ter sérias dificuldades de finalização, sabe trocar passes com maestria. Tem no seu meio campo jogadores muito habilidosos, começando por Xavi e terminando nesse baixinho terrível, chamado Iniesta.
Envenenada
Assim, a Holanda, que sempre primou pela troca de bola e velocidade, acabou sendo envenenada pelo seu próprio veneno, aquele que vários jogadores holandeses serviram aos seus adversários quando jogavam no Barcelona. Quem não se lembra de Cruffy, o piloto da laranja mecânica? Foram alguns bons anos de um futebol vistoso, hábil e envolvente que ele e seus compatriotas introduziram no Barcelona, esquema mantido até os dias de hoje. E, claro, sempre é bom lembrar que a Espanha foi campeã mundial sub-20 e que todos os 23 jogadores levados para a África do Sul passaram por esta ou aquela seleção de jovens. Portanto, todos chegaram experientes e levam o caneco merecidamente. Adiós.