Brasil - Santos - 30/7/2010
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Todos os Tons
Julinho Bittencourt - é jornalista, músico e atualmente reside em Brasília.
Grupo pra brasileiro nenhum botar defeito

 

Quem poderia imaginar que a mesma sensação que teríamos ao comparar o cinema argentino com o nosso aconteceria com a música, particularmente a mais pop.

 

Pois na mesma medida em que cineastas como Fernando Solanas, Luis Puenzo e, mais recentemente, Juan José Campanella, nos humilham sem perdão com filmes magníficos, surge uma geração de músicos e grupos argentinos que nos proporcionam invenções que nós nem passamos perto de sonhar.

 

São vários deles, que se reproduzem em muitas direções, capazes de, ao mesmo tempo, estabelecer uma relação com a mais alta tradição do tango e a cena eletrônica. O expoente máximo desta seara talvez seja o já consagrado Gotan Project.

 

O trio, que com seu disco de lançamento “La Revancha Del Tango” conseguiu a proeza de vender mais de um milhão de cópias, já rodou o mundo inteiro tocando algo que, a princípio, todos juram ser tango. Por outro lado, a garotada das raves e congêneres, jura ser música eletrônica, o que de fato é também.

 

O Gotan acaba de lançar, dez anos depois de seu primeiro disco, o lindo “Tango 3.0”, aonde vai mais fundo ainda, tanto no universo do tango e da tradição portenha, como também nas experimentações sonoras mais modernas. O resultado é, mais uma vez e acima de tudo, mágico. Uma música extremamente bem elaborada, inventiva e dançante, cerebral e ao mesmo tempo fluida, liberta das poltronas e ranzinzices.

 

Com uma produção impecável, o disco não chega a surpreender o ouvinte habitual do Gotan. Mais ou menos o mesmo universo e diretrizes dos dois anteriores está neste. A diferença talvez fique por conta de certa elegância e sutileza, de um domínio mais amplo da linguagem que eles mesmo inventaram.

 

Mesmo assim, o disco reserva algumas excelentes surpresas, como a participação do escritor argentino Júlio Cortazar lendo um trecho do seu emblemático romance “Rayuela”, conhecido por aqui como “O Jogo da Amarelinha”, acompanhado por um lindo coral infantil. O disco traz também a participação de Vitor Hugo Morales, uma espécie de Galvão Bueno dos hermanos, na a canção “La Gloria”.

 

Outra das novidades que merece destaque é a participação da lenda viva de New Orleans, Dr. John, tocando órgão Hammond B3 na bela “Tango Square”. A faixa que abre o disco parte de uma célula musical simples que se repete e alterna contrapontos entre o bandoneon e o órgão, criando um belo efeito, que lembra de longe o disco de Astor Piazzola com o saxofonista americano Gerry Muligan.

 

A banda Gotan Project é música pop com inventividade, coisa que não se tem feito ultimamente por estas bandas da fronteira. O disco “Tango 3.0” é essencial a quem tem sede de algo novo no universo da música pop latino-americana.
 
Clique aqui para ver e ouvir 'Domingo'.
 
 


25/05/2010
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