Brasil - Santos - 30/7/2010
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Causo e Conto
Pedro Firmino Sampaio - é empresário no ramo da engenharia, escritor e contador de causos
O alvo era outro

 

Nas cidades grandes é constante a tendência da construção de prédios de apartamentos por causa da escassez de áreas para casas térreas.

 

Em Santos esta observação é mais crucial, visto que a área urbana é murada nos quatro pontos cardeais.

 

Num grande contorno o Atlântico empresta o Porto e a beleza, mas rouba uma área enorme; de outro lado S.Vicente se avizinha com seus direitos; voltando-se para o planalto encontramos Cubatão menos orgulhosa após o sucateamentos de muitas empresas e industrias, nos anos oitenta e noventa;  se colocarmos o dedo no mapa  da parte continental, encontraremos grande extensão  apesar do saudosismo pela perda da opulenta Bertioga.

 

Por conclusão e falta de opções, os construtores de Santos compram duas ou três casas e erguem seus prédios – por isso Santos cresce verticalmente.

 

Não estou nesta estória para falar da verticalidade ou horizontalidade de Santos e seus vizinhos, mas de algo inerente a prédios de apartamentos. Para nossa tristeza existem muitas favelas verticais por esse Brasil afora, que dizem ser de Deus.

 

O sonho era uma casa

 

Alex, após muitos anos de trabalho na ex-orgulhosa Cubatão, comprou seu apartamento num bom bairro de Santos. O sonho era uma casa, mas como se os construtores ou lhe tomam a frente ou supervalorizam as áreas melhores? 

 

Moro em apartamento, mas a casa dá de dez em minha moradia, comenta Alex. Podo um monte de prazeres: o churrasco no quintal, a pequena horta, a companhia do melhor amigo (mesmo que seja um vira-lata) a casa está coberta de prós.

 

Não adianta - eu moro mesmo em apartamento, por isso tenho que emagrecer meu bolso pagando o condomínio, recebendo reclamações infantis, pegando o elevador com morador que me conhece há dez anos e não dá um cumprimento sequer com gestos...

 

O ser humano é muito rico em adaptabilidade às adversidades da vida, por isso Alex já encostou, num canto vazio do cérebro, a ideia de morar numa casa.

 

Espaço sideral pouco visível

 

O apartamento de Alex não tem vista longe – um amontoado de outros prédios fecha, em todos os ângulos, quase toda visão. O espaço sideral é pouco visível.

 

Alex comentou comigo que acha fundamental e, concordo que as pessoas precisam de um hobby para boa sobrevivência.

 

Aí ele contou o dele meio direcionado, por causa das podas condominiais. Disse-me que criava um casal de canários, a gaiola nunca saiu da dispensa - presente de um amigo. Não sente culpa pela prisão porque os dois nasceram também na prisão. A prisão deles agora é necessária - soltos, morreriam com certeza. Eu os crio e os tenho como hobby.

 

Alex foi surpreendido ao interfone, o porteiro lhe avisou que havia um oficial de justiça à sua procura. Já desço, atendeu cabreiro. Na sala de espera o oficial lhe entregou o mandado. Já estive aqui algumas vezes, disse o emissário, por isso o prazo para seu comparecimento ao Fórum já se esvaiu. O senhor poderá ser preso se o juiz entender como sendo procedente a acusação.

 

Psiu, filmado, virou assédio

 

Aturdido e com o futuro incerto, perguntou o porquê da intimação. Ao que respondeu baixinho o carteiro da lei: a vizinha do apartamento de frente ao seu o acusa de assédio e, o mais grave é que ela gravou seus gestos e psius. A filmagem flagrava nitidamente Alex na sacada fazendo psiu, psiu, psiu !

 

Na audiência, o advogado de Alex sentiu-se impotente, diante do filme, em defendê-lo. Assustadíssimo, o réu foi algemado por ordem do Meritíssimo

 

Na cadeia o presidiário tinha todo o tempo do mundo para meditar. Por mais que pensasse não encontrava a razão de sua prisão. Aquela mulher deve ser louca. Por que ela fez isso comigo? Sua auto-interrogação o deixava muito confuso pois as evidências filmadas...Hei de encontrar uma saída, dizia aflito.

 

Durante a noite ele pensava mais do que dormia. A família, os amigos, a fama de sacana... Sentiu saudade também dos canários. Ah! meus canários! Deu um estalo e uma luz iluminou o túnel inteiro. Estou salvo, salvo, salvo! O guarda de plantão veio averiguar a gritaria e o repreendeu. O preso da cela vizinha resmungou que o cara estava louco. Louco nada. Estou muito são e agora salvo.

 

Carta ao Juiz

 

Fez uma carta ao Juiz que o condenara. Meritíssimo, não sei como lidar com essas coisas de justiça, mas, por favor, leia minha carta.

 

Minuciosamente descreveu que possuía uma gaiola com canários. Os pássaros ficavam invisíveis aos olhos da vizinha que o acusara.

 

A gaiola é colocada na parte superior interna de minha área de serviços. Alex escrevia pesando as palavras para não perder a chance de ser entendido - fez vários rascunhos.

 

Todos os dias cedinho, eu cuido do casal de canários. Neste horário a senhora, que esqueci o nome, deve está dormindo, por isso não sabe da existência dos pássaros. Como eles são novos, não cantam.

 

Mas para o Juiz não desistir da leitura da carta, Alex a encurtou abruptamente. Após o café, eu fico brincando com os canários, tentando fazê-los cantar. Tenho absoluta certeza que minha vizinha trocou as bolas, deve achar que meus 'psius' são para ela.

 

Finalmente após seis longos meses, o Meritíssimo resolveu dar atenção à carta.

 

A absolvição de Alex tardou, mas não falhou. Sua vizinha ficou com tanta vergonha que vendeu o apartamento e sumiu.
 

 



13/03/2010
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