Brasil - Santos - 9/9/2010
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Toca o Bonde
Rene Ruas - é escritor, toca cavaquinho e faz parte do grupo de samba Ouro Verde e do Clube do Choro de Santos
Limpeza de Ponteiro

 

Maria Madalena, negra forte e farta, duros e enormes peitões, lábios grossos era a rainha da cocada preta. O último biscoito do pacote. Era a alegria da molecada, dos marinheiros e afins.

 

A função da Madalena era na casa da Tia Ivone no ‘doissetecinco’ da General Câmara. Menino de primeira vez o cabaço era da Madalena.
 
O moleque chegava todo envergonhado, olhando pro chão e dez minutos depois saia do quarto se achando o dono da Madalena, o maior malandro do cais.

 

Também não tinha tempo ruim e nem mamãe to bem na foto. A fama da Madalena era grande e a sua maior especialidade sem sombra de duvida era a gulosa.
 
Era considerada a melhor limpeza de ponteiro das bocas. O pequeno Cabeleira se achava o dono da Madalena.

 

O grande pequeno Cabeleira se acabava nos peitões da madame que, quando tirava a roupa, inundavam o quarto. O melhor cliente da mulher, porém, era o Queraba irmão dos Quase-Morto.
 
Queraba arrumava uns trocados e se empirulitava pra zona. Ia direto pros braços da Madalena que não tinha o menor trabalho pra cuidar do pereba, pois se acabava arriando as calças, com pena, Madalena, às vezes nem cobrava pelos serviços.

 

Tratava a molecada com paciência e por isso a clientela era chamada de parque infantil. Não tinha tempo ruim mesmo. A dor de cabeça maior da molecada era uma gonorréia aqui, um cancro mole ali, resolvido num piscar de olhos, uma visitinha na farmácia do bruxo Seu Romeu, uma dose cavalar de penicilina e pronto. Piroca nova no pedaço.

 

Encarava qualquer parada

 

Vagabundo não se criava pra cima da Madalena. Não aturava valentia covarde. Encarava qualquer parada. Cafetão, marujo, policia, manés em geral e espertinhos que tentavam comer de graça. Encarar briga com a mulher era o mesmo que bater de frente com bonde 19 cheio.

 

Atropelava sem dó nem piedade. Às vezes, no atendimento aos garotos era uma pluma de candura, outras vezes, na precisão, era um guindaste piroca triste. Batia firme mesmo. Em último caso fazia uso da esgrima. É isso mesmo meu velho, era hábil no uso da gilete entre os dedos. Fazia um estrago pavoroso no infeliz.

 

Maria Madalena, conhecida também como Boca de Mel, não era de se arrepender. Não se arrependia nunca. O que tinha de valente tinha de bondade. Boca de Mel sabia que a maioria dos meninos que freqüentavam o ‘doissetecinco’, estava sempre sem grana, sem um puto no bolso nem pro conhaque vagabundo, prestava então os serviços de graça.

 

Algumas vezes, depois de carretos de feira ou de engraxar sapatos na Rua do Comércio com a Rua XV que, afinal de contas, ali naquele pedaço é que morava a grana, até que pintava alguma merreca e o manezinho acertava as contas com Boca de Mel.

 

Maria Madalena tinha o coração mole, pois, além das atividades na Tia Inove, participava intensamente das festividades da Irmandade de Santo Antonio do Valongo, onde ajudava na quermesse, nas novenas e por ocasião do Natal era voluntária na distribuição de mantimentos para os pobres. Ali era a cozinheira de mão cheia e pau pra toda obra. Não conhecia cansaço.

 

Deixava a molecada na saudade

 

Trabalhava dia e noite. Desaparecia do doissetecinco por um bom tempo deixando a molecada em polvorosa, órfã e a casa mais triste. Gostava de cozinhar e fazer doces e salgados. Era vida dupla. Uma não sabia da outra. E assim tocava a vida.

 

Quando reaparecia para as funções a casa ficava uma loucura era gente entrando, saindo e aquela algazarra de parque infantil, pois a notícia se espalhava rapidinho pelo cais. E fazia fila. A molecada, cativa, voltava correndo pros peitões da mulher e de quando em vez traziam um novato para deixar a virgindade por conta da Maria Madalena.

 

Quando pintava um marujo doidão resolvido a dar porrada em alguma companheira de labuta, Boca de Mel virava o diabo em forma de mulher e arrepiava o otário sem dó nem piedade que covardia não admitia.

 

Fora das funções do doissetecinco o que Boca de Mel gostava mesmo era de traçar um feijão com arroz no bar da Gostosa e jogar conversa fora com o dinamarquês tatuador lá na João Otávio, pois a casa estava sempre cheia de marujos do mundo todo.

 

Maria Madalena, Boca de Mel, tocava a vida assim se dividindo entre a função na Tia Ivone e as festas de Santo Antonio.

 

Pegou a bonde errado

 

Um triste dia de dezembro, chovendo pra caramba, era chuva atirada de balde, manja, pingo que machuca, Maria Madalena vem sozinha lá do Valongo, de madrugada, a General Câmara quase deserta e dá de cara com quatro vagabundos, pés de chinelo, assaltando um marujo coreano, dando porrada pra valer no coitado, que além de estar sozinho, estava doidão ou seja, para Maria Madalena, covardia pura.

 

Aquela tal violência covarde que não admitia e sem pensar partiu pra porrada com os malandros com a força do bonde 19 lotado.

 

Desta vez, porém, Maria Madalena pegou a bonde errado e o bonde descarrilou. O primeiro que ela pegou de esgrima levou azar, se fudeu toda e caiu com sangue jorrando da jugular. Mas a covardia foi maior e os perebas arrebentaram a Boca de Mel de cabo a rabo.

 

O cais amanheceu mais triste. O doissetecinco continuou com a função, a molecada desapareceu, o porto ficou moderno, aquele vai e vem de marinheiros e trabalhadores foi minguando até desaparecer por completo. Tempos duros.

 

Os vagabundos mataram Maria Madalena a pedradas. Ladrõezinhos pés de chinelos, pixulés arregaçaram Maria Madalena, a Boca de Mel, que foi pra roça apedrejada. 

 

 

 



03/09/2010
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