“A morte emendou a gramática: morreram José Saramago. Não era um só. Era tantos”.
O meu primeiro contato com a obra de Saramago foi com o superclássico “Ensaio sobre a Cegueira”, numa tarde em que fui até a livraria da Rosana, no Gonzaga. O livro estava exposto numa estante, ao lado da porta, e a capa me pareceu meio exótica, com aqueles relevos numa imagem que não dizia nada.
“Ensaio sobre a Cegueira” foi uma experiência interessante na minha leitura de ficção. O ritmo e a forma totalmente saramaguiana de ser, sem uso de ponto-final, apenas vírgulas separando os diálogos de pessoas sem nome me fizeram indagar “pra que regras?”.
Lembro que cheguei a ler alguns capítulos para um senhor, vizinho meu, que era cego. Ele me perguntava: “este Saramago enxerga mesmo?”. E eu respondia que sim, “enxerga muito, enxerga longe”.
A posição política de Saramago, bem como suas afirmações sobre Deus, sempre me pareceram muito corajosas. “Evangelho Segundo Jesus Cristo” é aquela cutucadinha na Bíblia Sagrada, colocando uma lente de aumento nuns certos absurdos cristãos.
A entrevista que ele concedeu ao UOL mostra bem isso: mesmo estando doente, o escritor não se deixou abater em suas convicções atéias. Aquilo me deu uma pontinha de orgulho, pois eu sou agnóstica e não aceito aquelas conversões religiosas repentinas por motivos de sofrimentos extremos.
Outra característica do escritor que sempre me chamou a atenção era a sua integridade ortográfica. Abrasileirar seus livros, jamais! Separar os diálogos, nunca! E fui me acostumando ao jeito dele, aquele jeito tão... lusitano de ser!
Bonito foi, representativo até, um brasileiro conseguir os direitos para adaptar o Ensaio para o cinema. A reação do escritor ao assistir ao filme foi mais tocante ainda. Era o encontro do criador com a criatura... Sorte do Meirelles... uma façanha para a qual temos de tirar o chapéu: Saramago não morreu sem ter uma pitadinha de Brasil em sua obra e nós temos que nos orgulhar disso.
José Saramago é um autor especial, e eu ponho um "é", no presente, porque ele é imortal por sua obra. Não foi à toa que ganhou o Nobel de Literatura. Provou que, para ser escritor, não precisa nascer escritor, apenas ter vontade de escrever e pôr em prática suas idéias e inquietações.
Esta é a minha humilde homenagem ao grande escritor que veio a falecer, recentemente, na Lanzarote de seus cadernos... nos vulcões de sua alma...
Pois é, Saramago, chegou a hora de provar que Deus não existe... Ou sim.