Brasil - Santos - 9/9/2010
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Doce Veneno
Wilfer de Freitas - é jornalista
VLT coisa nenhuma. É bonde mesmo!

 

E então, após dias e noites sem dormir, com os olhos vermelhos injetados, Klaus saiu de mais um dos seus estados de inércia e silêncio absoluto, para gritar o mais alto que conseguiu, quase como se anunciasse o apocalipse. O fim dos tempos, para quem mora em Santos e São Vicente, está próximo, bem próximo, garantiu.

 

O anunciado VLT, presente dos governos estadual e municipal, vai nos sufocar a todos. Cercear o direito básico do ir e vir. As cidades vão perder suas ruas, avenidas, praças, ciclovias, ginásios de esportes, tudo. E pior, por trás de todo esse projeto alucinado e insano, alguém deve estar ganhando. E muito. Só pode ser um complô. Ou então estão todos loucos, gritava.

 

Eu entendia agora todas as dezenas de horas que Klaus passou diante do computador e de pilhas e pilhas de papéis, mapas, estatísticas, projetos e tudo mais. Ele analisou cada detalhe do primeiro grande passo do processo de metropolização da região, o dos transportes, essencial para quem vive problemas sérios de trânsito. E imaginava o VLT, veículo mais que moderno, ligando as cidades, transportando o povão feliz, levando o cara que trabalha de verdade, da sua  casa ao porto, à sua empresa, ao seu ganha pão.

 

Que nada, me explicou Klaus.

 

– O VLT não leva ninguém a lugar nenhum. Na verdade, não existe VLT. Existe um bonde. Nada além de um bonde. E barulhento. Pode até ser um bonde chique. Mas é um bonde. Com rede elétrica suspensa, processo de frenagem ferro sobre ferro, ao nível da rua e pior, com estimativa de transportar seis pessoas por metro quadrado. É mole? E afirmam, do alto de sua hipocrisia, que será um transporte confortável. Loucos. Só podem ser loucos e irresponsáveis.

 

– Tudo isso, gritava Klaus, está escrito e minuciosamente explicado nos detalhes da concorrência pública.  O projeto inicial, de utilizar a antiga linha da máquina, desde a área continental de São Vicente, até o porto de Santos, foi esquecido, abandonado. Agora, dizia, eles querem ligar o terminal do Barreiros ao do Valongo. Isso mesmo. Não é o cais do Valongo. É o terminal ao lado da rodoviária de Santos. Bem longe do porto. Muito longe do porto. Léguas de distância de tudo o que foi prometido.

 

 

Estrago incalculável

 

Pior ainda, dizia Klaus, é o que eles planejam fazer. O tal do bonde viria mesmo pela antiga linha da máquina. Mas, surpresa! Só até o canal um. Ali, ele sai da linha e adivinha... Entra no meio da avenida Francisco Glicério por onde segue até a avenida Conselheiro Nébias.

 

– O estrago é incalculável. Vai ocupar quase 10 metros do canteiro central da Glicério e deixar apenas uma faixa para veículos. E a ciclovia? Vai para a linha da máquina. Acabou o tráfego na Glicério. Acabou uma das artérias de escoamento do trânsito em Santos. Alguém consegue explicar tamanha sandice?

 

Nem eu mesmo estava acreditando no que Klaus contava. Boquiaberto, continuei ouvindo e me perguntando por onde andam os ministérios públicos, os órgãos de defesa ambiental, os vereadores, prefeituras, todos. Ninguém fala nada. Ninguém conhece nada do projeto.

 

Mas será mesmo? Ou será que conhecem e escondem os detalhes da população? A prefeitura, me garantiu Klaus, tinha seus secretários acompanhando tudo. Viajaram até para a Europa em nome do projeto. E o prefeito?  Onde está?  Por onde anda sua santidade? Mas nada. Todo mundo calado, todo mundo entorpecido, se fingindo de morto. Ou será que tá todo mundo comprometido com sei lá o quê e por isso mesmo com o rabo enfiado entre as pernas?

 

Klaus continuou sua exposição sobre o tal VLT. Às vezes soltava risadas medonhas, fantasmagóricas.

 

– Quando o bonde entra na Conselheiro,  explicou, fazendo uma curva digna de um  parque de diversões, ele  toma conta de quase toda a parte central da avenida, deixando também ali apenas uma faixa para veículos, seguindo em direção ao centro, rasgando tudo o que vê pela frente. Dane-se quem mora ou tem comércio por ali. O bonde paga as futuras desapropriações, que serão muitas. O governo tem dinheiro. O importante é enfiar essa obra goela abaixo do povinho.

 

– E assim, de forma simples, como está nos papéis - lembrou ele- Santos perde também a avenida Conselheiro Nébias. Fácil né? Tudo muito prático, simples e eficiente. A salvação para o nosso trânsito caótico. A salvação para o processo de metropolização. A Conselheiro é só mais uma avenidazinha, sem importância alguma. Afinal, pra que serve a tal avenida? Afinal, ali só existem algumas dezenas de escolas, universidades, distritos policiais, centros médicos, escritórios, tudo sem grande importância.
 

 

Como? O gás?

 

– E os gasodutos instalados recentemente ali pela Comgás e que o bonde vai passar por cima? Bem, disso se fala depois. Se alguém se sentir muito incomodado, que jogue seu carro fora, morda o dedão do pé e coma um suflê de jiló, com cobertura de maxixe, aconselha Klaus. Isso acalma.

 

– E na segunda fase da obra, maravilha das maravilhas do século 21 – continuou ele - o bonde chique vai seguir pela Glicério em direção ao cais até o canal 4. Dê então adeus à praça Palmares. O bonde passa bem por cima. Depois segue arregaçando a Pedro Lessa e a Afonso Pena, É isso mesmo, acaba a ciclovia que o Papa e seus competentes assessores entregaram pouco antes das eleições. Ele e sua equipe não sabiam do projeto? Onde estavam? Ou tem algo de podre no reino da Dinamarca que nós ainda não sabemos?  E se você acha que é pouco, berrou Klaus, tem muita manga ainda pra ser chupada.

 

Eu já não sabia mais o que pensar. Estava tão atordoado com tudo o que Klaus me contava que não conseguia raciocinar direito. Foi quando Klaus gritou. 

 

– O bonde chique do Serra e do Papa, não contente com toda a carga de nêutrons que será jogada sobre a população, segue em frente rumo ao cais, rumo à região conhecida como Santa, para onde está prevista a construção de uma estação. E para isso, absurdo dos absurdos, rasga a praça Rebouças ao meio, explode com quadras esportivas,  passa a poucos metros do Ginásio, dinamita casas, comércios e o que mais estiver pelo caminho. E a troco de quê? Porque tanto absurdo?

 

 
Como? A Alston?

 

É isso. O bonde chique e inútil é capaz de ser mais louco que todos os loucos juntos. Mais irresponsável do que possa imaginar nossa vã filosofia, mais filho da puta que qualquer bandidinho de merda.
 
E deixa os reis nus, mostrando o descompromisso, o distanciamento das verdadeiras necessidades da população. Era mesmo pra explodir de ódio frente a tanta sacanagem, a tamanho desrespeito, a tanto escárnio.

 

E por fim, falando baixinho, quase murmurando, Klaus me perguntou se eu seria capaz de adivinhar qual o nome da empresa responsável pelo fornecimento dos bondes chiques, ou melhor, dos trambolhos que prometem infernizar de vez a vida dos santistas. Como me mantive em silêncio, berrou:

 

– É a Alston, aquela multinacional francesa que jogou areia na farofa do Alckmin e, conforme o Wall Street Journal noticiou, teria pago propina para políticos do governo paulista para conseguir contratos com o metrô em São Paulo. E é esse pagamento de propinas que as policias suíça e francesa continuam a investigar. Por aqui, todo mundo permanece quieto. Parece que reina a paz. É tudo muito suspeito e sujo. Cabeças hão de arder no
mármore do inferno.
 
 
Abaixo uma imagem reduzida do trajeto do VLT:

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Clique aqui para ver a imagem ampliada do trajeto do VLT
 
 


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