O ser humano mais do que qualquer outro animal sempre cultivou a violência. Basta recordarmos o sangrento circo romano, as fogueiras inquisitórias e as guerras e extermínios que marcaram nossa história.
Mas, o que acontece de peculiar nos “anos do consumismo” é que mesmo com os exemplos históricos de que a agressão é o caminho menos eficiente para se atingir qualquer objetivo, a violência continua sendo consumida avidamente. É impossível circular pelas ruas e não perceber que a violência pop, muito mais voraz do que em qualquer filme de Quentin Tarantino, invadiu o subconsciente e os hábitos da nossa espécie.
Se o culto à beleza povoou as obras e estudos dos humanistas dos séculos XV e XVI e o iluminismo do século XVIII inspirou a filosofia do culto à inteligência, é a violência que inspira a arte, a moda e as relações sociais e sexuais do nosso tempo.
Ela não está somente no desespero por comida dos sobreviventes do terremoto ou no homem que mata a ex-esposa com nove tiros ou no maluco que injeta mais de cinquenta agulhas em uma criança.
Figura também no "paizão" que ensina aos filhos o desprezo pelas diferenças, no patrão que usa outros critérios, que não a capacidade, para selecionar seus funcionários e na ganância inconsequente dos "mercadores da habitação".
Está nos estádios de futebol (nos campos e arquibancadas) e nos rodeios, nas brincadeiras infantis e nas conversas dos adultos, nas escolas e na bolsa de valores, na literatura de ficção e não-ficção, nos classificados de jornais e nas filas de desempregados, no despreparo da polícia e na organização do crime, nos latifúndios e nas milícias, em deus e no diabo.
Doçura romântica: sinal de fraqueza
O violento capitalismo selvagem transformou o mundo em uma selva globalizada em que o “perdão viril” de Gandhi e a doçura romântica de Vinícius de Moraes são vistos como sinais de fraqueza. Alimenta-se e repugna-se a violência simultaneamente.
Qualquer atrocidade é rapidamente exibida pela internet ou pelas emissoras de TV, saciando assim a sede de violência dos inúmeros consumidores do gênero que, como a “mãe coragem” de Brecht, consomem e são consumidos por ela.
A violência vende e enquanto a cultuarmos, ela não desaparecerá. Como no conto de Julio Cortázar, um dia a barbárie com um som impreciso e surdo tomará nossa fortaleza e nos arrastará com ela.
“Alguma coisa está fora da ordem!”, a frase de Caetano Veloso, ao constatar uma população formada por possíveis grupos de linchadores ao mesmo tempo em que via harmonias possíveis num juízo final, é o slogan dos espetáculos de massacres e balas perdidas de um tempo em que crianças cantam músicas que falam sobre armas e tiroteios, obras de arte são depreciadas com pichações e nações são submetidas à violência daquelas que dizem libertá-las.
Cada vez mais real e latente a desumanidade caótica (“As queer as a clockwork orange”) do mundo imaginado de Burgess e Kubrick.
Será a violência o derradeiro sinal de humanidade do “homem cordial” antes de transformar-se em uma máquina completa?
Será a nossa era uma curva descendente na História, jamais imaginada por Charles Darwin, o início de um retrocesso, na contramão evolucionista, no qual Cristo ensinará o revide, Moisés escravizará o povo hebreu, Sidarta lutará pela opulência e Adão será o último macaco a queimar, seis dias antes de o Planeta Água voltar a ser uma bola de fogo?